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meu conto de natal

RENATO LELLIS

O final do ano se aproxima e Clarice sabe que não precisa fazer resoluções de Ano Novo. Ela decidiu suicidar-se na véspera do Natal. Esta noite. 

Clarice não é uma pessoa particularmente depressiva, nem está passando por alguma crise em especial.

Ela já passou dos sessenta anos e decidiu que a vida não tem mais nada a lhe oferecer.

Ela se julga uma pessoa prática, e a perspectiva de viver até uma idade muito avançada não lhe atrai.

 O marido a deixou dez anos atrás e este mundo há mais de cinco.

Os três filhos têm suas próprias vidas e ela não os vê muito. Para os dois netos ela nunca fez a avó do tipo mimosa, e como ela os vê menos do que os filhos, não se pode dizer que sejam muito chegados.

Não que Clarice queira mal filhos e netos. Ela sinceramente gosta de todos eles, mas eles têm suas próprias vidas e compromissos e ela entende isso perfeitamente.

Mas não queiram dela manifestações rasgadas de emoção. Ela sempre foi contida sempre se orgulhou de seu senso prático.

 Ela tomou a drástica decisão natalina ao perceber o que o futuro lhe reservava. Com a medicina moderna, ela previu que poderia tranqüilamente ultrapassar os oitenta anos de idade. Mas em que condições?

Ela tem certeza que não deseja passar os últimos cinco ou dez anos de sua vida tendo que depender de outras pessoas para as coisas mais elementares, como se alimentar ou banhar-se.

Ela prefere partir agora, enquanto ainda tem consciência de seus atos, em sua casa e cercada pelas coisas que amou do que cercada por estranhos preocupados apenas em liberar um leito.

 Se a decisão parece ter sido simples, a escolha da data não foi feita sem hesitação. Ela tem certeza que será mal-interpretada, mas suas razões são puramente práticas.

Ela não recebe muitas visitas, mas no dia de Natal seus filhos sempre vêm para um almoço em família.

Apesar de ter decidido morrer, Clarice não apreciava a idéia de deixar seu corpo à mercê da decomposição. Por algum motivo a perspectiva não lhe agradava.

Escolher a véspera de Natal lhe dava a certeza de que seu corpo seria encontrado em bom estado.

 A escolha do método também não foi difícil. Nada que pudesse levar a hesitações de última hora. Portanto nada que pudesse provocar dor: lâminas, cordas, afogamento e tiros estavam fora de questão.

Sua opção foi por uma mistura de álcool e calmantes, que até onde ela pode pesquisar iriam provocar apenas um sono profundo antes do fim. Sem dor nem medo.

 Enquanto coloca um de seus vestidos preferidos, ela observa as caixas de remédio em sua cômoda, ao lado de uma garrafa de uísque blue label que custara vários meses de sua magra aposentadoria.

Ela não tinha muito gosto pelo álcool, mas se tinha que tomar algum, que fosse de boa qualidade. Ela não queria que sua última sensação fosse dor de cabeça.

Tudo pronto, exceto um último detalhe: algumas velas arrumadas em volta de sua cama. Ela gosta de velas aromáticas, acha que criam um clima aconchegante.

 Ela procura fósforos para acender as velas em seu criado mudo. Não encontra nenhum. No armário da cozinha também não. Na sala de estar, nos banheiros, na despensa. Não encontrou nenhum.

- Tudo bem. - Pensou ela.

- Os fósforos acabaram. No posto de gasolina da esquina deve ter. Eles ficam abertos dia e noite.

Ela pega sua bolsa e sai pela rua, usando o vestido escolhido para sua morte.

 Chegando ao posto, ela vê uma menina de quatro ou cinco anos. Ela se aproxima da criança preparada para negar qualquer pedido do tipo “dá um real” ou “dá um trocado, tia”, mas a menina nada diz. Ela apenas olha para Clarice.

Um olhar profundo e sério.

Clarice desvia o olhar e vai para a loja de conveniência, onde um atendente meio sonolento estava sozinho.

Ela pegou um pacote de fósforos e, enquanto paga pergunta ao atendente:

 - Aquela menina ali fora, onde estão os pais dela?

- O pai eu não sei, mas a mãe a polícia levou.

- Como assim, levou?

- Ela parou para abastecer e estava em um carro roubado. Parou uma viatura atrás e enquadrou ela.

- Carro roubado?

- Parece que tinha arma também, ou droga, não sei. Foi no fim da tarde, antes do meu turno.

- E a menina?

- Ficou aí.

- Isto eu estou vendo. Ninguém veio buscá-la? Pai, parente?

- Se a mãe é assim, imagina o resto.

- E o juizado de menores?

- Amanhã é feriado, dona, a senhora acha que alguém vai querer encrenca hoje à noite?

- E a menininha?

- Ah, alguém pega.

Clarice sentiu um calafrio ao pensar nas implicações de “alguém pega”.

Em outros tempos ela teria passado uma descompostura no atendente, mas hoje ela tem um compromisso, ela tem que morrer. 

Ela dirigiu-se de volta para casa, com os fósforos na bolsa e novamente passou pela menina, parada ainda no mesmo lugar.

Novamente ela olhou para Clarice apenas, séria e profundamente.

 Clarice desviou o olhar e seguiu em frente.

Estacou. Deu meia volta.

Sem se abaixar, encarou a menina, que a encarou de volta.

- Você sabe onde é a sua casa?

A menina respondeu, balançando a cabeça negativamente. Não sabia.

- Você tem o número de telefone de algum tio ou irmão?

Novamente ela balançou a cabeça. Não tinha.

- Você tem algum documento?

Mais uma vez ela balançou a cabeça. Obviamente que não tinha.

 Clarice suspirou e estendeu a mão.

A menina pegou a mão de Clarice.

Clarice seguiu para casa, com a menina ao seu lado.

 Clarice não usou os fósforos naquela noite, uma vez que seu fogão tinha acendimento automático e ela só precisou dele para aquecer o leite.

Na manhã seguinte, o uísque blue label foi alvo de uma complexa negociação no supermercado 24h, tendo sido trocado por um mirrado peru (era o último) e mais alguns ingredientes para o que acabou sendo um jantar de Natal, ao invés de um almoço.

Os calmantes ficaram lá na cômoda. Com uma criança em casa às vezes eles são necessários.