Meiotom - Crônicas


 

e-Crônica # 62

RENATO M. LELLIS

Seis Marias - Parte III

 

 

4- Maria Ciúme

 

 

Mais um estudo de caso para entender mais um caso patológico.

 

Cláudio conheceu Maria em um dia primeiro de novembro. Como católico ele achou que seria um bom presságio começar um relacionamento no Dia de Todos os Santos. O que ele se esqueceu é que o Dia de Todos os Santos fica entre o dia das bruxas, que tinha mais a ver com Maria, e o dia de finados, que era como Carlos iria se sentir após algum tempo.

Ignorante destes fatos – e de muitos outros também, Cláudio nunca soube, por exemplo, quem venceu a Guerra dos Cem Anos, mas isto não vem ao caso – ele entrou de cabeça no relacionamento.

No começo as coisas correram bem (elas sempre correm bem no começo), mas depois de algumas semanas Maria começou a se portar de forma diferente.

Certo dia, estavam Cláudio e Maria indo a uma inocente sessão de cinema no carro de Cláudio. Quando parou em um cruzamento, Cláudio sentiu um cutucão nas costelas.

- Ai!

- Por que você parou?

- O sinal está vermelho! Lembra daquela musiquinha do pré-primário: Motorista, motorista, o vermelho é para parar...”?

Novo cutucão.

- Ai! O que foi?

- Você parou por causa dela!

- Ela quem? – E Cláudio viu uma garota atravessando o cruzamento.

- Ela! – Disse Maria, apontando para a garota – Você queria olhar a bunda dela!

O choque de Cláudio só se dissipou quando um coro de buzinas lembrou-lhe que o semáforo estava aberto e os motoristas atrás dele estavam tecendo comentários pouco elogiosos sobre sua árvore genealógica.

Maria ficou muda e de cara amarrada durante todo o caminho até o cinema, durante todo o filme e também durante todo o caminho de volta.

Ao chegar à casa de Maria, Cláudio tentou uma aproximação.

- Você ainda está brava por causa da história do cruzamento? – Perguntou ele, protegendo as próprias costelas.

- Homem é tudo igual, não pode ver uma sirigaita que vai logo se oferecendo!

- Mas eu não me ofereci, eu nem tinha visto a moça!

- Ah é? E como você sabia que ela era moça?

- É só um modo de dizer!

- Você poderia ter dito “a velhota”.

- Bom, o fato é que não tinha visto o humanóide em questão.

- Mas se tivesse visto, teria paquerado ela, não é? Homem é tudo igual, por que você seria diferente?

Cláudio deixou de lado a completa ausência de lógica da argumentação. Provavelmente Maria estava tentando “expor seus sentimentos” ou algo parecido. Ele tentou então atacar o cerne da questão, ou que ele imaginou que fosse.

- Meu amor, por você eu vou mudar.

E mudou mesmo.

Cláudio adquiriu o hábito de não parar mais em cruzamentos o que em dois meses lhe custou a carteira de habilitação e o carro que foi guinchado.

Cláudio nunca conseguiu recuperá-lo, pois o valor das multas devidas por dirigir como se estivesse jogando “Need for the Speed Undergound” era muitas vezes superior ao valor do próprio carro.

É claro que a implicância de Maria para com o olhar de Cláudio não se limitava aos cruzamentos (e a partir do momento que o carro de Cláudio se foi, isto não seria mais possível de qualquer forma). Logo Cláudio se habitou a sentir o cutucão nas costelas em shopping centers, restaurantes e bares. Com o tempo ele adquiriu um estranho hábito de andar olhando para o chão, como se estivesse procurando alguma moeda caída.

Talvez você pense que a perda do carro e os problemas de coluna de Cláudio talvez tenham feito Maria cair em si. Nada menos verdadeiro. Se existe uma coisa que a Maria Ciúme não conhece são limites. Uma vez que uma fonte de desconfiança se esgota ela sai em busca de outra.

E como sempre Maria encontrou a sua nova fonte. Na verdade um clássico moderno: o telefone celular de Cláudio.

Diga-se de passagem, nada fez maior estrago na psique das Marias Ciúme do que o telefone celular. Ele está para a estabilidade emocional delas assim como o aerosol está para a camada de ozônio.

Quando o único meio de comunicação à disposição dos enamorados do mundo era a carta, a confiança era um bem que recebia um tratamento melhor. O fulano fazia juras de amor e partia em longas viagens marítimas que podiam durar meses ou anos. E o que a sua amada podia fazer se não aguardar?

Hoje em dia, para que cultivar a confiança, se você pode testar o seu companheiro a cada minuto? Muitas mulheres usam o celular como dispositivo de rastreio (Onde você estava as 22h14 que você não atendeu o celular, hein, hein?) ou como registro de atividades ligações feitas, recebidas, duração, tudo pode ser usado contra o parceiro.

O que aconteceu com Maria foi muito simples: Certo dia ela atendeu ao telefone celular de Cláudio.

Era Mariana, chefe de Cláudio, avisando sobre uma reunião que ocorreria no dia seguinte.

Coisas terríveis às vezes acontecem a partir de eventos simples. Dizem que um dos estopins da Segunda Guerra Mundial foi uma discussão sobre postes telegráficos. Quem sabe?

Um simples telefonema de trabalho na hora errada e a vida de Cláudio virou um rascunho do apocalipse:

- Quem é essa Mariana?

- É minha chefa, ué!

- É? E por que ela tem o número do seu telefone celular?

- Faz parte do meu trabalho, ué! Eu fico muito fora do escritório, o pessoal tem que poder me achar.

- É? No meio da noite?

- O que ela disse?

- Alguma coisa sobre uma reunião...

- E qual o problema?

- Você acha que eu sou boba, né? Eu não sou boba não! Conheço esta conversinha de reunião de trabalho. De manhã? Ela deve estar querendo marcar um encontro num motel!

- Motel? Tá louca? A Mariana é casada!

- E daí? Eu conheço o tipo. Além do mais, homem é tudo igual, por que você seria diferente? – E como sempre, Maria fechou a cara.

Cláudio refletiu sobre os seus colegas de trabalho. Mariana, estagiárias, secretárias, analistas... Talvez Maria estivesse certa. Com tantas mulheres à sua volta, talvez a tentação fosse inevitável. Será que ele estava flertando com alguma colega sem perceber?

Só havia uma coisa a fazer:

- Meu amor, por você eu vou mudar.

E mudou mesmo.

Cláudio trocou o promissor emprego de técnico de informática por um onde a possibilidade de ter colegas de trabalho do sexo oposto fosse menor. Foi trabalhar em uma borracharia.

Os desafios eram bem menores e as conversas eram bem menos estimulantes, mas pelo menos ele imaginou que não teria mais problemas com Maria.

Ledo engano.

Maria parecia sempre ter algum motivo para desconfiar de Cláudio.

Ele passou a conversar com amigas de longa data apenas por telefone. Nem pensar em um encontro para o almoço. A sua vida social passou a ser tão movimentada quanto a de um monge tibetano em retiro. Nem o próprio aniversário ele pode comemorar mais. Turmas de amigos foram dispensadas e parentes do sexo feminino não podiam mais comparecer aos eventos familiares em que Cláudio estivesse.

Tudo isto ele aceitava com estoicismo, crente de que um dia sua amada iria reconhecer a sua dedicação e a futilidade de tanto ciúme, pois Cláudio nunca fizera nada de errado fora da cabeça de Maria.

A todas as queixas, recriminações, caras fechadas e ataques de mutismo Cláudio repetia o seu mantra pessoal:

- Meu amor, por você eu vou mudar.

Mas certo dia, Cláudio disse esta frase pela última vez.

Eles decidiram morar juntos, para tentar “salvar a relação”. Claro que uma vizinhança normal não atenderia Maria. Vizinhas disponíveis são notórias tentações para homens comprometidos. Cláudio procurou muito até encontrar o local ideal: uma caverna de bom tamanho, em uma reserva ecológica.

Não poderia ser melhor: sem cobertura de telefone celular, sem recepção de televisão, sem outdoors com mulheres em poses indecentes e sem viva alma em um raio de dezenas de quilômetros.

Cláudio levou Maria para o seu novo lar, junto com um pequeno estoque de suprimentos que ele conseguiu comprar com o salário da borracharia.

Ele ainda teve o cuidado de empilhar pedras na entrada da caverna, para o caso de alguém que estivesse fazendo treking (e fosse uma mulher) passar pelas redondezas.

E assim Cláudio se preparou para iniciar uma nova fase de seu relacionamento, totalmente desprovida de conflitos, brigas, recriminações e acusações.

Mas quando encarou Maria através da tênue luz dos lampiões, Cláudio percebeu que ela estava de cara fechada.

- O que foi meu amor?

- Você estava fazendo de novo, não é?

- Fazendo o quê?

- Homem é tudo igual, por que você seria diferente?

- Do que você está falando?

- Você estava pensando em outra mulher!

Cláudio parou, pensou por alguns minutos finalmente disse.

- Meu amor, por você... Ah, que saber? Vai ver se eu estou na esquina!

Apesar da escuridão, Cláudio conseguiu desbloquear a entrada da caverna e sair para o mundo exterior, mas não sem antes encontrar uma pedra de bom tamanho e nocautear Maria.

 

Recomendações? Bom, pessoas muito mais competentes do que eu já escreveram sobre o monstro de olhos verdes, então vou citar um que não irá me processar por causa de direitos autorais.

 

“Para os ciumentos isso pouco importa, / pois eles não precisam de motivo / para terem ciúmes. São ciumentos. / São porque são. E só. O ciúme é um monstro / que a si mesmo gera e de si mesmo nasce.”

 

Shakespeare, Otelo, Ato Terceiro – Palavras de Emília para Desdêmona que disse nunca ter dado motivo para que Otelo sentisse ciúmes dela (e terminou sufocada por um travesseiro).

 

Em resumo? Ciúme doentio é uma coisa doentia. Não tem cura. Caia fora.

 

Continua na próxima semana...

 

Renato M Lellis