Meiotom - Crônicas


 

O FIM DO MUNDO

RENATO M. LELLIS

O mundo vai acabar.

Daqui a duas semanas.

Às 15h25 (hora de Brasília), numa quarta-feira.

Podemos perceber duas coisas terríveis desta simples informação:

- Não vai dar para emendar o final de semana.

- Ninguém vai saber qual seria o final da novela das oito.

Como eu sei disso?

Minha fonte pediu para ficar em sigilo, mas posso garantir que ela é de total confiança.

Algo deve ser feito.

Caso contrário, na quinta-feira, daqui a duas semanas as pessoas vão sair de casa para ir para o trabalho e todo o mundo vai ficar em silêncio olhando desconfiadamente para os lados, tentando perceber o que está faltando.

Até que alguém diga: “É só isso? Já acabou?”.

A grande maioria vai se arrepender de nunca ter feito o que sempre teve vontade, como tomar leite com manga, entrar em uma porta onde esteja escrito “somente pessoal autorizado” e faltar no trabalho para ir ao cinema.

As pessoas devem ser avisadas. O mundo não pode acabar assim sem mais nem menos, sem que os preparativos adequados sejam feitos.

Penso quem eu deveria avisar primeiro, para não gerar pânico, nem uma explosão nas compras a prestação.

A imprensa, talvez? Afinal, divulgar notícias é o negócio deles.

O problema é que a imprensa precisa de dados confiáveis.

Vão perguntar quem é minha fonte, vão querer fazer verificações cruzadas e entrevistar especialistas no assunto.

O problema disso tudo é que eu não posso revelar minha fonte, afinal ela pediu sigilo. E eu tenho que cumprir minha promessa.

Vou acabar sendo processado.

Desisto da imprensa.

O governo, quem sabe? Afinal, proteger a população é a obrigação deles.

O problema é que o governo sempre diz que não tem dinheiro.

Vão reclamar que precisam divulgar a data corretamente, contratar artistas para a campanha publicitária, construir monumentos e organizar solenidades e o orçamento da União não previa nada disso.

Como sempre, eles vão inventar um novo imposto, talvez se chame IPFM (Imposto Provisório sobre o Fim do Mundo). Talvez um imposto municipal também.

Desisto do governo. Já pago impostos demais.

Que tal os religiosos? Afinal, eles sempre disseram que o mundo acabaria um dia: chuva de enxofre, os mortos ressuscitando, a serpente do mundo lutando contra o deus do trovão e todas as outras variações.

O problema é que eles irão tentar decidir quem tem razão e resolver a quem cabe o mundo pós-fim.

Afinal, será a última chance de arregimentar alguns adeptos. Depois do fim do mundo este papo de religião deve sair de moda um pouco.

Conseqüentemente, é provável que os religiosos vão tentar resolver as coisas como eles sempre fazem: na porrada.

Vão ser duas semanas bastante tumultuadas se os religiosos resolverem acertar as diferenças dos últimos dois mil e poucos anos de uma vez só.

Desisto dos religiosos. Acho que eles vão gostar da surpresa.

Talvez eu devesse resolver o assunto eu mesmo e colocar a data do fim do mundo na Internet.

Afinal, ela é a forma mais rápida de divulgar informações confiáveis (como a gangue de ladrões de rins, por exemplo).

Me animo e procuro alguma página que trate do tema “Fim do Mundo”.

Não acho uma página sobre o assunto.

Acho 150.000 páginas.

Como alguém vai se preparar para o fim do mundo decentemente com tanta gente falando do mesmo assunto?

Talvez se eu procurar a imprensa...

Acho que não tem jeito mesmo.

O mundo vai acabar.

Penso muito a respeito e resolvo deixar para lá, afinal o fim do mundo não é o fim do mundo. Ou é? Já não sei, este assunto todo é muito complicado e eu tenho que acordar cedo amanhã.

Vou dormir.

 

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