Meiotom - Contos


 

A UM AMIGO

MARCOS ROSA

Esse livro, esse caderno, esse diário, essa homenagem... Este pequeno objeto, sem nome, tão cheio de significados é a prova  de uma história. Ele é a vivência de um mundo a ser descoberto, constantemente, dia-a-dia.
Por muitas razões, foi feito a uma pessoa muito especial que diversas vezes teve papel único na minha vida, e por isso marcou, por isso tem um valor muito grande para mim.
Esse pequeno objeto, quadrado talvez, traz consigo formas inúmeras, atrai o ser humano a romper barreiras. Resume-se numa história em homenagem a um amigo. É difícil fazer isso, é arriscado, pretensioso, mas sinto que devo tentar.

Escuridão
Mardesafiante
Vagar pelo nada
Atmosfera em surpresas
Focos de alegrias e emoções
Pontos de tristeza
Marcas de uma vida
Brilhos reluzentes
Vida (in)crível
de mistérios a serem desvendados
por trás de todo esse
céu de estrelas.

Numa aldeia, talvez ainda desconhecida, vivia uma garotinha. Era muito pequena, ainda assim já mostrava uma magia única. Nascera numa noite escura, numa pequena cabana, sob a luz de uma única estrela. Era uma noite muito especial.
Gostava de observar as estrelas, e numa aldeia tão simples, gostava de deitar-se ao clarão da lua. Era por isso diferente de todos. Criava um sentido novo à sua vida, queria ir além daquela comodidade e trazer de volta a todos um mundo maior, e por isso, gostava das estrelas.

Para ela, as estrelas, pontos brilhantes no meio da escuridão, iam se formando aos poucos, ao longo da vida. Seu céu ia se construindo lentamente, e tudo ficava lá registrado.
Cada passo dado, cada dificuldade, cada amigo, cada briga, cada ato, toda sua vivência se escrevia n
o céu, numa língua entendida especialmente por essa menina.
Todos os t
raços e vestígios de vida estavam marcados no céu, com cada estrela, cada astro, cada pontinho que ajudava aos poucos a entender um mundo que já fora muito mais escuro quando ela nascia.
E por isso, cada
estrela tinha uma história própria. Havia as Três Marias, sempre juntas, às vezes difíceis de encontrar; um pouco ao lado, o Cruzeiro do Sul.
To
dos juntos, os astros compunham um céu de alegrias e tristezas, certamente de uma vida conjunta, jamais esquecida, marcada no céu. Lembrada a cada noite.

Por vezes, tempestades tentavam esconder tudo isso, porém tudo durava muito pouco, e tudo parecia ainda mais forte, os brilhos eram mais intensos; as luzes, mais abundantes.

As estrelas surgiam no meio de clarões, para a pequenina, por instantes cediam lugar ao dia e depois reapareciam, sempre com mais estrelas, sempre com mais brilho e mais beleza. Então ela descobriu que as estrelas também poderiam ser vistas de dia, e o mundo de fez maior.
A vida para essa menininha construiu-se assim, e ela pôde ensinar a todos como olhar o céu e se lembrar, ao fim de cada dia, que as estrelas estão todas lá. E apesar do medo do dia, dos problemas e expectativas, a noite já vinha.
O dia e a noite não mais se revezavam, estavam lado-a-lado. Ela pôde então ter a certeza de que vivendo um dia após o outro, fazendo deles o melhor possível, as estrelas, fosse noite ou dia, só se faziam maiores a cada segundo. Elas estariam sempre lá e se fariam cada vez mais belas, compartilhando sentimentos e emoções, vivendo sempre juntas.

Para você,
O céu seria a melhor homenagem, o melhor livro, o melhor diário, o melhor objeto, a melhor atmosfera para se dizer tudo isso. Como não consegui pegá-lo, tentei trazê-lo até aqui. Estamos todos nós aqui, representando um momento importante de nossas
vidas. Agora, o aí somos todos nós. E nós estamos aqui.