Meiotom - Crônicas


 

 

fernanda MASSEBEUF

Onde é que tudo isso vai parar?

 

 

Maquiavel exterminou de vez a hipocrisia dos bons sentimentos. A luta pelo poder incita ambições egoístas. Mas para ir além delas e obter o aval do povo, o detentor do poder deve exibir ambição aparentemente inspirada em causas nobres. A política é a vontade de mudar o mundo. Os processos sociais vivenciados atualmente denotam o resultado dessas manobras maquiavélicas. Crise é o que está estampado no quotidiano do país. Ficamos chocados num primeiro momento, mas com o  decorrer do tempo a violência é cada vez mais banalizada, mesmo se ampliada, e nos acostumamos com ela. Criaram o poder paralelo nas favelas, reforçando-se deste modo a Lei de Darwin. Como qualquer ser humano em guerra vira bandido, o resultado é o salve-se quem puder. Se os traficante ganharam o poder financiado pelos bacanas do asfalto, compreendemos que isso só se produziu porque a conivência do poder público existe. Enquanto isso, a população desfavorecida encontra-se desamparada e sem visibilidade.

 

Ganha cada vez mais espaço nas artes a violência urbana. O leitor/expectador é obrigado a pensar e viver com o coração na mão a realidade nacional exposta tão nua e cruamente em obras como A cidade de Deus, de Paulo Lins, Inferno, de Patrícia Melo ou Elite da Tropa, de Luiz E. Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel. Graças a essa iniciativa os habitantes das favelas ganham voz ativa e deixam de ser vitimizados. Adaptando-se essas obras para o cinema é aumentado em progressão geométrica o impacto dos vários golpes secos do efeito reação em cadeia que põe as normas sociais às avessas.. O que vale mais: assaltar nos faróis, sonegar, saquear o bem público, pagar salários de esmola? Ainda assim glorificamos o político que sabe conciliar a imoralidade de seus métodos com a virtude de seus objetivos, o mal e o bem, o egoísmo e o idealismo. A literatura baseada em informação mostra que de certo modo todos os envolvidos nessa crise social, direta ou indiretamente, podem ser considerados bandidos. Isso vai ser determinado pela perpectiva de quem analisa a situação. Existimos através do outro, do olhar do outro. Além disso, nossa opinião a respeito de qualquer assunto é formada a partir do que somos ou acreditamos ser. Daí os conflitos sociais exteriotipados entre classes sociais, entre povo e poder, morro e asfalto.

 

A maneira como são tratadadas essas questões pelos autores instiga a prática de maior violência social ou aumenta a consciência social do público leitor/expectador? Agradar não é o objetivo desse tipo de trabalho. Poderíamos dizer que vem à tona a culpa social ou sua negação no que diz respeito à classe média privilegiada; revolta no tocante aos  desfavorecidos ou prazer nos que gostam de ver o circo pegar fogo. Quem não se interessa pelo tema tratado e em razão disso desconhece a realidade dos desfavorecidos, está acostumado a enxergar  apenas uma parte da realidade social do país. A pressão osmótica da arte incita reações contraditórias. A culpa social aparece porque fazemos pouco ou nada para que a situação mude. Tudo é carnaval quando o assunto é a crise social. Cotinuamos a fazer pouco ou nada no momento em que é mais cômodo transferirmos a culpa ao outro. Nossa consciência nos absolve. A agudez da inegalidade social machuca, e muito. É necessário transpormos os limites impostos pela consciência culpada e destruir os muros que enclausuram os desfavorecidos numa realidade paralela. Essa é uma das mensagens transmetidas pela arte.  A ordem do dia é a de lhes oferecer oportunidades melhores que a criminalidade, pois tanto faz assaltar de moto, a pé, de carro ou de colarinho branco. Na luta pela sobrevivência só o mais esperto sobrevive.

 

É desenhada a sociedade contemporânea, caótica e decadente pela literatura, que impressiona pela rapidez do ritmo, pela força da linguagem e tensão cinematográficas. São histórias de amor, humor e luta  que se cruzam e se entrelaçam. Histórias reais de pessoas que moram numa favela e sonham, intrigam, invejam, disputam, amam e odeiam, às claras ou às escondidas, como bem fazemos todos nós. A realidade social brasileira é de fundamental importância para que o poder público tome atitudes concretas em prol do cidadão comum.