Meiotom - CONTO


   

lucius de mello

 

        

                         UM   VIOLINO PARA OS GATOS

                         ( Conto que  dá nome ao primeiro livro de contos de Lucius de Mello – publicado pela editora Maltese em 1995)

 

                        O pedaço de amor que o dono da loja colocou na balança satisfez  o cliente: dois quilos. Quem disse que o amor não pode ser exato como a matemática? Estava ali, sobre a máquina de quantificar as coisas. Só isso, perguntou o comerciante. Girassol apenas confirmou com um gesto dos olhos, pegou o pacote e seguiu para casa. Antes que a compra se estrague, é preciso colocá-la na geladeira. O amor exato quase sempre se conserva gelado, lembrava Girassol, ao caminhar lentamente pela rua com os dois quilos de amor embrulhados num pacote de jornal. As mãos do bancário revezavam-se no transporte da etérea mercadoria. Os dedos esquerdos apertavam a história da primeira página. Um crime hediondo num bairro elegante de São Paulo. Girassol sabia que, quando segurava a compra naquela posição, amassava a parte do texto em que o repórter descrevia a versão mais aceita pela polícia: paixão. Ele também acreditava nela. Tinha certeza de que uma reação química detonada pelo ciúme fez do apaixonado um monstro. Que outro ser mataria e ainda arrancaria o coração de uma mulher, abandonando-o, ainda batendo, sobre as plumas de uma fantasia? Zé do Beijo mataria por amor, sim. Quantas vezes, nas conversas no balcão do bar, deixou claro que preferia matar a perder a mulher da vida dele para outro. Para o comprador de amor, não era surpresa aquela tragédia.

                   Cristal Conceição Martins, dona Cristal, a porta-bandeira mais premiada da escola de samba Valete de Ouro, tinha duas grandes paixões: o carnaval e a única filha, Noite. Girassol conheceu as duas logo que veio morar em  São Paulo. A viagem de Florianópolis para a grande metrópole marcaria uma mudança radical na vida do jovem de cabelos amarelos. Fios que pareciam pintados pelas mãos mágicas de Van Gogh, nos dias em que o gênio resolvia fazer omelete do sol, batendo o tom mais amarelo do universo sobre a palheta, misturando tinta com alma, imortalizando a cor dos quindins. “Vou ganhar dinheiro em São Paulo, dizia o  moço para os pais. E foi. Da rodoviária à pensão de dona Sofia, foi assaltado duas vezes e se perdeu no labirinto do santo com chifres cheios de apartamentos, mas encontrou o endereço. Uma pequena casa branca de portas e janelas azuis no pé do morro de Santa Madalena. A velha o recebeu com um sorriso e não hesitou em alugar um quarto para o rapaz branco que tinha o nome da flor que ela mais gostava.

                     Era tempo de carnaval, e a vila estava toda mobilizada na produção de alegria. Não demorou   para  Girassol ser convidado a entrar para a ala do Olimpo. Num dos ensaios na quadra da  Valete  de Ouro, o bancário conheceu Noite. A jovem mulata estava sendo preparada para substituir a mãe, que há dez anos desfilava emprestando as pernas para a bandeira requebrar na avenida.  Zé do Beijo, filho do bicheiro que mantinha a escola de samba, aproximou-se rapidamente. O que todos pensavam que poderia terminar em confusão ganhou um desfecho surpreendente. Pela primeira vez,  o

 namorado não foi grosso com o forasteiro que se aproximou da sua Noite. Os três beberam e conversaram até todos os tamborins e cuícas pegarem no sono. Girassol nunca se esqueceu do silêncio daquela madrugada. Enquanto o dia ia ganhando luz, ele conquistava a amizade do homem mais temido da terra da  Valete.  Entrou na pensão. A mulata e o bicheiro continuaram naquela trilha, tropeçando em gatos, observados pelo cio dos felinos que se preparava para dar o bote em cima do telhado. Noite foi amada dos pés à cabeça.

                Girassol arrancou o excesso de perfume. Era o primeiro dia de trabalho no banco. Presente do pai de Zé do Beijo, que praticamente adotara o novo amigo do filho. Para chegar até o serviço, Girassol afundava e saía da terra puxado pela  velocidade dos trens do metrô. Nessas horas ele lembrava das raízes que deixou para trás. Saudades da mãe, do pai, da avó, dos irmãos....Quando começou a primavera, o moço de cabelos amarelos   pôde deixar a pensão e alugar a  própria casa. Noite bateu à porta na hora em que ele assistia a um filme na tevê.  A moça pediu para entrar e, muito nervosa, foi soltando o desabafo sobre a mesa onde repousava o resto do jantar. Um prato com alguns grãos de feijão, arroz e o osso do peito do frango. Girassol abaixou o volume da tevê e fez Noite beber água com açúcar.

                 Os olhos negros relaxaram e fixaram a lâmpada no alto. O amigo conseguia ver pequenas estrelas dentro dela. Entre uma e outra piscada, a alma de Noite vazava, se deixava ver e acenava com lampejos de luz em forma de fonte. Ela contou que estava decidida a terminar tudo com Zé do Beijo, porque tinha se apaixonado por outro. Um músico da Orquestra Sinfônica de Portugal, chamado Luciano. Nos  vimos  pela primeira vez há dois meses, quando ele e todo o grupo vieram conhecer a quadra da escola,lembra? Até gravaram um vídeo misturando o nosso samba com a música clássica!  A gente se olhou e não teve jeito. Com ele, eu tenho certeza que é amor. Com o Zé já é diferente... É mais segurança, poder, dinheiro....Sinto que vendo o meu amor pro Zé. Amor não se compra, Girassol. E muito menos se vende! Com o Luciano é só emoção, sentimento....paixão, mesmo!  Luciano toca violino. É sensível como a música. O Zé tem nome de beijo mas é violento como um revólver, um tiro de metralhadora. Por isso preciso contar tudo para ele antes que descubra pela boca dos outros.

                     Os dois amigos decidiram que Zé do Beijo precisava engolir essa história o mais rápido possível. E, como Luciano voltaria para o natal, Girassol achou melhor conversar com o bicheiro na véspera. As cartas do português cruzaram o Atlântico  dezenas de vezes...Noite respondia todas e alimentava cada vez mais o desejo do casamento e do amor eterno. Mesmo com a cabeça e os sonhos num país que ela só conhecia pela televisão, a mulata  esforçava-se para não deixar Zé do Beijo perceber o temporal que explodia dentro dela. Os ensaios para o carnaval exigiam cada dia mais. Porta-bandeira principal, Noite tinha que comparecer a todos eles. E ela até exagerava na vontade de cumprir o dever só para usar o cansaço como álibi na hora de cometer o crime de não se deitar com Zé do Beijo. Na terra da fantasia, o tempo parecia andar montado numa tartaruga. E Noite não se entendia com o relógio. Queria quebrar os ponteiros, que para ela eram lanças com alvo programado: a safra de amor gerada no coração apaixonado.

 

                      A mansão dos pais de Zé do Beijo estava iluminada para a ceia de Natal. Noite ficou de ir com  a mãe e com Girassol, mas na última hora não teve coragem. A saudade de Luciano foi maior, e a moça, levando a mala da fuga, correu para os braços do violinista, que tinha acabado de chegar de Lisboa.  Sobre a cama deixou uma carta contando tudo a dona Cristal. Quando chegar em Portugal, mando notícias. Amo você. Amo o Girassol. Essas foram as últimas palavras que Noite usou para se despedir da mãe e do amigo. A Girassol, agora, restava  arrancar a loucura do homem traído.Zé do Beijo lançava a língua contra Deus a cada anoitecer. Enchia a cara de pinga e implorava para o mundo ser feito só pelos dias. Cuspia nas estrelas. Apontava o revólver para a lua. Atirava nos gatos. Quebrou o relógio, na tentativa de subtrair as horas noturnas. Maldita hora em que essa negra metida a artista batizou aquela macaca de Noite! , gritava o bicheiro, em frente à casa de dona Cristal. Girassol, meu irmão, como eu vou sair dessa, como? O que eu fiz para ela me trocar por um português? E eu nem me lembro da cara do infeliz. Roubou minha mulher dentro do meu território e eu nem percebi...

                    Zé do Beijo apontou a arma para o gato cinzento que o olhava fixo de cima do muro. Mais uma vez Girassol não teve tempo de impedir. O projétil de prata foi detonado. O animal encarou a bala que, zunindo no ar, nos últimos segundos da imaginação que restavam ao felino, foi vista por ele como um pedaço de peixe fresco ou um passarinho suicida. Mas o que se aproximava era a morte. E o bicho que saiu para a primeira noite de amor, nem conseguiu completar o miado da agonia. Os dois amigos sentaram na calçada e, sob a lâmpada do poste, começaram a salvar os besouros da tortura de ficar no chão com as patas para cima.   

                     Noite escreveu confirmando que viria para o desfile das escolas de samba. Dona Cristal só mostrou a carta para Girassol e para o carnavalesco da  Valete  de  Ouro. A mulata e o marido chegaram uma semana antes da festa. Noite desceu do táxi e correu para os braços da mãe, que a esperava no portão. Luciano pegou as bagagens, pagou o motorista e, pela primeira vez, foi apresentado à sogra. Girassol chegou logo depois, e foi convidado a participar do jantar. A salada de frutas com sorvete foi saboreada na varanda.  O bancário contou à amiga que Zé do Beijo tinha viajado para o Guarujá e talvez nem voltasse para o carnaval. Naquele instante, a bateria da  Valete deu o primeiro chamado. Noite segurou nas mãos do violinista  e deixou os olhos revelarem o desejo de participar do ensaio.

                     Foram os três para a quadra, desviando dos comentários. A porta-bandeira  tinha voltado para assumir o lugar que nunca deixou de ser dela. Beijou e abraçou os amigos.  Deixou o corpo ser tomado pelo samba.  Girassol e Luciano também se misturaram à multidão. Entre um copo e outro de cerveja, Noite era surpreendida pelo pânico de ter de enfrentar o reencontro com Zé do Beijo. E se ele chegar agora, perguntava a si mesma. Os rostos suados dos foliões cada vez mais ganhavam as formas da cara do bicheiro. Noite girava e olhava a todos com desconfiança. Eram muitos Zes do Beijo. Uns conformados. Outros indiferentes. Tinha também os vingativos, revoltados, ameaçadores. E ela ali, perdida do marido e de Girassol, desprotegida...

                   No primeiro intervalo, Noite procurou pelos companheiros e comentou que não se sentia bem. Os três seguiram a pé até a rua da casa de dona Cristal. Conversaram até  o último sambista passar. Quando as luzes da quadra se apagaram, Girassol se despediu e deixou o casal sob a lâmpada do mesmo poste em que ele e Zé do Beijo deram um exemplo de caridade aos besouros. Luciano pediu para a mulher esperar na calçada e rapidamente voltou arranhando alguns acordes no violino. Adágio em sol menor, de Tomaso Albinoni. Uma das músicas que Noite mais gostava. Ela ficou sentada e ele em pé. Como se tocasse a amada, fez  do arco o próprio braço. As quatro cordas se entregaram às carícias. A mulata encostou a cabeça numa das pernas do marido e, em silêncio, assistiu ao ato de amor entre o homem e o violino. O instrumento, tão aplaudido  nos grandes teatros do mundo, apresentou-se para  a rua deserta e para a platéia de gatos que se juntou no telhado com a habilidade e talento  que sempre lhe foram de tom.

                 A  Valete de Ouro despejava no sambódromo um polêmico samba-enredo, várias vezes excomungado pela censura e pelas igrejas cristãs. As autoridades religiosas só permitiram a homenagem depois de receber o dízimo milionário do pai de Zé do Beijo. O carro abre-alas trazia um boneco gigante do Papa João Paulo Segundo abrindo e  fechando os braços com os dedos congestionados   de anéis que imitavam ouro e pedras preciosas. A alegoria estava vestida com uma luxuosa fantasia de plumas negras, pedrarias e um grande crucifixo da cor do sol. Entre as pernas do Papa, que estava sentado sobre o planeta Terra, vinte mulatas nuas sambavam presas em cordões que se faziam mover por aquelas engrenagens das marionetes, aqui controladas pela boca de sua santidade. O pastor-rei abria o caminho para o rebanho apostólico romano que seguia logo atrás. Dividindo as alas dos Adões e das Evas , o carro da nave catedral. Uma alegoria gótica iluminada por milhares de velas. A tecnologia primitiva misturava-se aos efeitos dos painéis dos discos voadores dos filmes de ficção. O destaque era Deus. Enrolado numa serpente, um galã da televisão, quase como veio ao mundo, fazia as vezes do criador do universo. No comando da nave, ele tinha a missão de descarregar no globo uma carga de homens pré-históricos.

                   A Valete fez chover no sambódromo. Um equipamento invisível aos olhos do público derrubou muita água sobre a ala dos desesperados e pecadores. Evoluindo com o samba, a agonia dos que perderam a vida no dilúvio. Vacas, girafas, elefantes de verdade navegavam num mar de plástico felliniano dentro de uma cinematográfica arca de Noé. Girassol estava no grupo dos anjos e arcanjos. Defendia a camisa da escola com muita empolgação, mas estava preocupado mesmo em sair voando dali para localizar o amigo Zé do Beijo, que prometeu assistir ao desfile no camarote da família. O bancário olhava para as santas que tinham a altura de um prédio de doze andares e pedia proteção para a porta-bandeira. Noite girava, encantava a multidão de fiéis do carnaval. Estava entre o carro do pecado, um banquete da luxúria, e a ala das baianas, que este ano vieram de Maria Santíssima, com o Menino Jesus nos braços. O mestre-sala conduzia a

parceira com elegância. Noite só caiu das nuvens quando se viu em frente ao ex-namorado. Zé do Beijo assistia friamente à apresentação  da escola, ao do pai e da mãe, com ajuda de um binóculo. Noite sabia que estava bem próxima dos olhos do bicheiro. Presa nas lentes. Mas não desmontou o sorriso e encarou Zé do Beijo. Ele não esboçou nenhuma reação. Parecia participar de um funeral colorido. A sambista,então, rodava, rodava, girava, levitava, tirava beijos da boca e jogava para o público que sacudia as arquibancadas. O rosto do homem que tinha no nome um gesto de amor desapareceu do camarote e se multiplicou. Apareceu em todos os lugares. No meio do povo, fantasiado de Papa; escondido sob o manto de Nossa Senhora Aparecida; crucificado no carro alegórico ao lado de um Jesus negro; disfarçado de frei na ala da Inquisição  e até mesmo de mestre-sala. Quando Noite viu Zé do Beijo segurando  na mão dela, parou, respirou fundo, chamou a atenção de uma repórter de tevê, mas depois, aliviada, viu que estava vendo coisas demais e deu um forte abraço no parceiro. Retomou então a garra de sempre e continuou a girar e a sorrir. Só então, lembrou-se do marido e de Girassol. O bancário já estava na dispersão, mas Luciano vinha bem atrás, como um dos artistas queimados na fogueira.

                    Assim como aconteceu com aquele gato, Girassol também não teve tempo de salvar Noite da loucura de Zé do Beijo. Quando chegava ao fim do desfile, a mulata foi agarrada pelo ex-namorado e arrastada para dentro do carro dele. Noite gritou, pediu socorro, mas ninguém ouvia mais nada por ali, a não ser o coro da multidão cantando o samba-enredo da  Valete. Pára o carro, Zé! Pediu a porta-bandeira. Mas o bicheiro não falava nem olhava para ela. Só enxergava a noite de Natal em que foi trocado pelo português.

                   O portão automático abriu, o vigia fez um gesto de boa noite e o carro entrou na mansão dos  Beijo.  Com exceção dos seguranças, os empregados estavam de folga e toda família no sambódromo. Noite foi levada à força para o quarto do herdeiro. Pela primeira vez, depois do fim do namoro, ele olhava nos olhos dela. Você gosta de violino agora, não é? Eu não me esqueci desse detalhe, disse Zé do Beijo, ao ligar o som. Pelo amor de Deus, Zé, me deixe ir embora, gritou  Noite ao dar murros na porta do quarto. Mas só a música do instrumento de quatro cortas que saía das caixas sonoras ouviu o pedido de socorro de Noite e a abraçou. Foi como uma anestesia. Zé do Beijo apontou o revólver para a porta-bandeira já desfalecida e disparou apenas um tiro no coração, que logo depois ele mesmo arrancou do corpo ainda quente e impregnado de samba e o deixou , soluçando, pulsando, sobre a fantasia da filha de dona Cristal, da amiga de Girassol e da paixão de Luciano.  

                      Onde andará esse louco do Zé agora, perguntava Girassol, que ainda não tinha chegado em casa, com o embrulho nas mãos. O bancário não teve coragem de visitar dona Cristal. Da calçada, conseguiu ver as sombras do viúvo e da mãe conversando, sentados à mesa. Ia ser muito triste lembrar de tudo novamente. Continuou a caminhada pensando no que poderia ter feito para evitar aquela tragédia. O pacote começou  a ficar mais pesado e ele notou que um pouco de culpa havia vindo junto com os dois quilos de amor. Tropeçou num gato. O animal escancarou um miado estridente e correu, correu até desaparecer naquela noite sem luar e sem estrelas.

 

 

 

 

 

 

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