| Meiotom - Crônica |
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lucius de mello |
A Periferia de Diadorim
Num passado nem tão
distante, ela bem que poderia ter sido chamada de Diademo. Combinaria mais com o
inferno que hospedava dentro do seu periférico corpo de município da grande São Paulo.
Infectada pelo vírus da violência no seu estágio mais feroz a cidade não
garantia oxigênio nem para a
palavra esperança, que morria minutos antes de ser cuspida pela boca dos
otimistas, românticos e mais ingênuos. Era o caos, diziam muitos moradores que
pagaram com a vida do pai, da mãe, dos filhos, do tio, do avô por ousarem
continuar vivendo ali,
E nos dias atuais? Será que tudo isso acabou? Pesquisas realizadas pelo terceiro setor e pela própria prefeitura garantem que esse quadro melhorou muito. Verdade? Não sei. Não é de hoje que o município em parceria com Ongs, iniciativa privada e com a própria comunidade, investe em programas sociais e em campanhas de desarmamento para combater a violência. Resultado: Os levantamentos apontam que o número de homicídios caiu significativamente e hoje consegue poupar a cidade da constrangedora e vergonhosa posição de município mais violento do estado.
Mas o mais surpreendente vem agora: coincidência ou não, o fato é que bastou a borracha da boa vontade
política apagar os revólveres que
os poetas apareceram. E Diadema, quem diria, virou Diadorim! Um jagunço
literário e por que não dizer, não menos violento que os manos das favelas. É o
bandido que ataca de dentro para fora, que se esconde nas letras, faz ciladas
nos livros para pegar o leitor e muitas vezes matá-lo de um jeito que ele nem
percebe. E os desavisados moradores
que tanto sonharam com a paz foram lá no teatro Clara Nunes cutucar o diabo com
vara curta. Diabo que estava entocado no palco, na praça da moça que não tem
nome, mas é praça da moça, insistiu
a senhora que esperava o ônibus
E foi essa Diadema ora de Diadorim ora dos manos das favelas, que me recebeu, na
tarde do dia 22 de novembro, e ainda tem recebido tantos escritores e poetas
nacionais e estrangeiros para participar da Primeira Mostra Internacional de
Literatura – Poesia e Prosa que
termina no próximo dia 30. Minha
mesa prestou homenagem a Campos de Carvalho - escritor mineiro, radicado
Alunos, professores da rede pública de ensino, donas-de-casa, aposentados e pensionistas, quem sabe algum bandido regenerado ou não... As cadeias estão cheias de presidiários leitores e autores, não estão? Quem disse que assassinos não gostam de literatura? Vejam Hosmany Ramos, publicado pela Gallimard e o Marcola, líder do PCC que é fã da comédia de Dante. Enfim, o mais importante é que a periferia que gerou e ainda gera violência, abriu as portas para poesia. E não apontou o revólver para ela, nem ameaçou, nem assaltou, nem nada. Nonada. E os moradores em geral, estão reservando um tempinho para passar pelo auditório do teatro de Diadema e prestigiar os convidados e os escritores locais. A esperança já consegue respirar. E parte da amedrontada população de Diadema está interessada em entender esse sentimento de estranheza de si mesmo que existe dentro do coração do escritor e do poeta e que Campos de Carvalho definiu tão bem: “ Há momentos em que me sinto lúcido e há outros em que , pelo contrário,sinto uma presença estranha dentro de mim, como se devêssemos ser gêmeos e houvéssemos nascidos dois num corpo só”.
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