Meiotom - Crônica


   

lucius de mello

 

        

                                                   

                                               A Periferia de Diadorim

 

 

 

             Num passado nem tão distante, ela bem que poderia ter sido chamada de Diademo. Combinaria mais com o inferno que hospedava dentro do seu periférico   corpo de município da grande São Paulo. Infectada pelo vírus da violência no seu estágio mais feroz a cidade não garantia oxigênio nem  para a palavra esperança, que morria minutos antes de ser cuspida pela boca dos otimistas, românticos e mais ingênuos. Era o caos, diziam muitos moradores que pagaram com a vida do pai, da mãe, dos filhos, do tio, do avô por ousarem continuar vivendo ali, em Diadema. Difícil dar uma volta na rua central da cidade e não encontrar com um único corajoso habitante que não tenha perdido um parente ou um amigo para a violência.  Recordista  paulista em homicídios,  Diadema via seus cidadãos e bandidos tombarem sem vida,  aos quilos,  pelas ruas tingidas do vermelho da morte. Seus trabalhadores e trabalhadoras  viviam apavorados, inseguros , com medo de sair até mesmo à janela da própria  casa. Pipoqueiros e doceiras  na porta da escola nunca faltaram, mas, muitas vezes, eram de pólvora as balas que estouraram nas bocas dos adolescentes.  Quantos crimes! Chacinas! Quanta impunidade!

            E nos dias atuais?  Será que tudo isso acabou? Pesquisas realizadas pelo terceiro setor e pela própria prefeitura garantem que esse quadro melhorou muito. Verdade? Não sei. Não é de hoje que o município em parceria com Ongs, iniciativa privada e com a própria comunidade,  investe em programas sociais  e em campanhas de desarmamento para combater a violência. Resultado:  Os levantamentos apontam que o número de homicídios caiu significativamente e hoje  consegue poupar  a cidade da constrangedora e vergonhosa posição de município mais violento do estado.

           Mas o mais surpreendente vem agora: coincidência ou não, o fato é  que bastou a borracha da boa vontade política apagar os revólveres que  os poetas apareceram. E Diadema, quem diria, virou Diadorim! Um jagunço literário e por que não dizer, não menos violento que os manos das favelas. É o bandido que ataca de dentro para fora, que se esconde nas letras, faz ciladas nos livros para pegar o leitor e muitas vezes matá-lo de um jeito que ele nem percebe. E os desavisados  moradores que tanto sonharam com a paz foram lá no teatro Clara Nunes cutucar o diabo com vara curta. Diabo que estava entocado no palco, na praça da moça que não tem nome,  mas é praça da moça, insistiu a senhora que esperava o ônibus em paz. Se foram ou não vítimas de Diadorim é difícil prever, quem sabe daqui uns anos.

             E foi essa  Diadema ora de Diadorim ora  dos manos das favelas, que me recebeu, na tarde do dia 22 de novembro, e ainda tem recebido tantos escritores e poetas nacionais e estrangeiros para participar da Primeira Mostra Internacional de Literatura – Poesia e Prosa  que termina no próximo dia 30.  Minha mesa prestou homenagem a Campos de Carvalho - escritor mineiro, radicado em São Paulo, que não gostava de Kafka e que dizia ter tido um encontro com o diabo exatamente de um minuto e meio.  Ao meu lado, três poetas do Grande ABC.  Ricardo Gomes Pereira, de Diadema; Aristides Theodoro, de Mauá e Hildebrando Pafundi, de Santo André.  No auditório  pessoas que talvez nunca tenham lido um livro sequer, mas que estavam ali, atentas, cutucando Diadorim, provocando, pensando, ouvindo, em silêncio,   interessadas nas histórias que nós contávamos e  líamos  e também interessadas  em conhecer a difícil realidade de quem insiste em viver de livros.

            Alunos, professores da rede pública de ensino, donas-de-casa, aposentados e pensionistas, quem sabe algum bandido regenerado ou não... As cadeias estão cheias de presidiários leitores e autores, não estão? Quem disse que assassinos não gostam de literatura?  Vejam Hosmany Ramos, publicado pela Gallimard e o Marcola, líder do PCC que é fã da comédia de Dante. Enfim, o mais importante é que a periferia que gerou e ainda gera violência, abriu as portas para poesia. E não apontou o revólver para ela, nem ameaçou, nem assaltou, nem nada. Nonada.  E os moradores em geral, estão reservando um tempinho para passar pelo auditório do teatro de Diadema e prestigiar os convidados e os escritores locais.  A esperança já consegue respirar. E parte da amedrontada população de Diadema está interessada em entender esse sentimento de estranheza de si mesmo que existe dentro do coração do escritor e do poeta e  que   Campos de Carvalho definiu tão bem: “ Há momentos em que me sinto lúcido e há outros em que , pelo contrário,sinto uma presença estranha dentro de mim, como se devêssemos ser gêmeos e houvéssemos nascidos dois num corpo só”.