| Meiotom - Crônicas |
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lucius de mello |
NO RASTRO DE BORGES E CORTÁZAR
Verão de 2007. Desci
do táxi
Sarah, uma senhora muito educada, veio receber-me. Disse que a casa estava fechada para visitas mas não resistiu ao meu pedido e acabou permitindo que eu conhecesse o imóvel comprado por Maria Kodama, a viúva borgeana, para abrigar a memória do escritor argentino. Minha patroa está no Uruguai, volta só no fim de semana, comentou a secretária. Logo ali atrás fazemos as jornadas literárias. Venha conhecer o auditório! Os manuscritos? Ora, eles ainda não ficam aqui não. Não temos segurança suficiente para guardá-los neste casarão, respondeu a funcionária. Quem sabe um dia trazemos todos para cá. É o sonho da minha patroa. Já deste outro lado, veja aquela cadeira. É uma obra de arte feita por uma talentosa artista plástica. Olhe bem de perto aquele pedaço da peça. É possível ver o rosto de Borges no metal. Consegue vê-lo?
Era uma fotografia. Mas a arte conseguiu fazê-la ser muito mais que uma simples imagem estática e morta. Lembrei-me dos enigmas e maldições dos espelhos e seus duplos que o mestre evoca à Bioy Casares no conto Tlon, Uqbar, Orbis Tertius : “declarara que os espelhos e as cópulas são abomináveis porque multiplicam o número de homens”. Dentro do encosto da cadeira de madeira, o rosto de Borges se mexia. Como se quisesse dizer alguma coisa ou apenas dirigir um olhar, um sorriso, uma cara-feia. Nem me preocupei em desvendar a técnica usada pela artista, de tão envolvido que fiquei com a expressão facial do escritor. Ela parecia observar todos que entravam naquela sala.
Como um fantasma, Borges
estava ali, conosco, preso dentro
da cadeira, atento a tudo que conversávamos sobre ele. Nesta casa aqui ao lado,
Borges viveu de
Ela subiu e eu fiquei com Borges na sala. Veio-me outro célebre conto naquele ambiente: A casa de Asterión, quando ele diz : “meditei sobre a casa. Todas as partes da casa existem muitas vezes, qualquer lugar é outro lugar.A casa é do tamanho do mundo; ou melhor é do mundo”. Borges é para mim também um outro mundo ou sacerdote doutros universos infindos... Olhei para o perfil refletido do escritor portenho e lhe agradeci por tudo que tinha escrito, em especial, pelos momentos emocionantes que vivi e ainda vivo ao reler o seu Livro de Areia. Nele, Borges ficcionaliza a idéia de que a literatura é espaço heterogêneo da totalidade e um território onde se concretizam os desejos insatisfeitos: o livro não escrito, o amor frustrado, a revelação da palavra secreta, a construção do mundo futuro. O conto que fala de um livro que tem um número de páginas infinito. “Nenhuma é a primeira; nenhuma , a última. Não sei porque são numeradas desse modo arbitrário. Talvez para dar a entender que os termos de uma série infinita admitem qualquer número”.
Essas palavras escritas por Borges voltaram a minha memória. A voz de Borges chegou timidamente até mim. “Declinava o verão, e compreendi que o livro era monstruoso. De nada me serviu considerar que não menos monstruoso era eu, que o percebia com olhos e o apalpava com dez dedos com unhas. Senti que era um objeto de pesadelo, uma coisa obscena que infamava e corrompia a realidade. Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse com fumaça o planeta. Lembrei haver lido que o melhor lugar para ocultar uma folha é um bosque. Antes de me aposentar, trabalhava na Biblioteca Nacional, que guarda novecentos mil livros; sei que à direita do vestíbulo uma escada curva se afunda no porão, onde estão os periódicos e os mapas. Aproveitei um descuido dos funcionários para perder o Livro de Areia em uma das úmidas prateleiras”.
Fiquei ali parado com uma saudade infinita de mim mesmo. Saudade de areia. Saudade é de areia. Deserto. Saara. Sarah voltou com dois exemplares das revistas Prima e Proa que eu acabei comprando. Deixe seu email pediu a secretária de Maria Kodama. Quero lhe enviar a programação das jornadas literárias. Nesses eventos sim, o espírito de Borges esta presente, garantiu-me a simpática e culta anfitriã. O que ela nem podia imaginar é que eu já vinha conversando com o espectro de Borges há alguns minutos e que enquanto Sarah falava sobre os encontros que ocorriam na Fundação eu explicava ao imortal patrão dela que dali ainda ia visitar Júlio Cortazar na confeitaria London City; que dali de Palermo até o café onde nasceu Os Prêmios, na avenida de Maio esquina com a rua Peru, ainda tinha que atravessar mais um grande pedaço de Malos Aires. Como não lembrar de Dante e de Goethe quando sol, implacável, brotava do subterrâneo e eu estava entre Borges e Cortazar naquele dia de areia amarela. 40 graus.
Ao chegar à London City sentei-me ao lado da mesa onde Cortazar escreveu seu primeiro romance em 1960. Ele e seu inseparável cigarro não saíam daqui, disse o garçom mais velho da casa. Vinha diariamente escrever a novela Los Prêmios. Pode tirar um foto se quiser. Fique a vontade. Sobre a mesa uma placa de metal avisando que o autor de O Jogo da Amarelinha freqüentava o local , uma caderneta e uma caneta. Um altar literário protegido por uma corda de veludo vermelha que separa a instalação cortaziana dos demais mortais.
Pedi um suco de laranja com ovos mexidos, um café e
comecei a ler o planfleto editado em inglês e espanhol que conta a história de
como a London City virou musa inspiradora de Cortazar. Nele destacam-se os trechos onde o
escritor cita a confeitaria no romance Los Prêmios. Como logo na abertura do
primeiro capítulo: “La marquesa salió a las cinco – pensó Carlos López – “Dónde
diablos he leído eso?” Era
Coincidência ou não, no dia seguinte comprei no sebo Cueva Libros – na rua Paraná 562 – um exemplar muito bem conservado da segunda edição de Los Prêmios editado pela Sudamericana em agosto de 1964. Sorte? Que nada. Acho que foi um presente que ganhei por ter me deixado guiar, na segunda visita a Buenos Aires, pelos fantasmas mais ilustres dessa cidade literária.
Autor : Lucius de Mello
Escritor e jornalista – Finalista do Prêmio Jabuti 2003 na categoria reportagem/biografia com o livro Eny e o Grande Bordel Brasileiro – editora Objetiva.
Pesquisador do LEER - Laboratório de Estudos sobre Etinicidade, Racismo e Discriminação da USP
IBLIOGRAFIA SUGERIDA:
Ficções - Jorge Luis Borges
Aleph - Jorge Luis Borges
O livro de Areia – Jorge Luis Borges
Os Prêmios – Júlio Cortazar
O jogo da Amarelinha – Júlio Cortazar
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