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Quem
escreve o romance?
O entrelaçamento de escritor, narrador e vivência na literatura
contemporânea
Miguel Sanches Neto - Ponta Grossa - PR
Esta talvez seja a questão crucial da ficção contemporânea, em que tem
prevalecido o simulacro como padrão.
A escrita pertence a qual sujeito?
Em muitos casos, quem escreve é o mercado, porque a profissionalização do
escritor exige que se produza ao gosto do público. E aí não há diferença
muito significativa entre o livro e o sabonete: ambos têm que vender. Neste
caso, o autor, como pessoa, não existe. É o receptor que comanda o enredo,
a
linguagem, o desfecho, anulando a figura do emissor literário, que vê
usurpado o seu lugar num espaço que seria seu. Sob o signo do mercado, o
autor vira invenção de um público plenipotenciário, que inverte a própria
lógica da comunicação. O autor, espelho vazio de imagens, capta as
expectativas de um conjunto de consumidores padronizados, que se reconhecerá
num livro com sua medida literária e existencial.
Nesta anulação do autor reside o segredo da máquina mercantil do best
seller.
O falseamento do autor não é, no entanto, um privilégio do best seller e
tem
ramificações em alas mais prestigiosas de nossa cultura, como na que vem
sendo chamada de pós-moderna, corrente que surgiu na segunda metade do
século 20 junto com as teorizações literárias, quando se impôs uma
distinção
rígida entre a pessoa do autor e a figura literária do narrador, entre o
poeta e o eu lírico. A nova orientação é para que se leia o narrador e não
o
autor, na tentativa de afastar o interesse pelo homem que escreve,
concentrando-o numa entidade abstrata. Esta autonomia do produto literário,
uma espécie de ditadura teórica, criou uma barreira entre a voz do escritor
e a voz de quem narra, uma não podendo coincidir com a outra.
A força do escritor estaria na sua capacidade de despersonalização,
segundo
o modelo proposto por Fernando Pessoa .
Mas se o autor não está contido no livro, este não se presta à construção
de
sentido, sendo antes um jogo, que se basta a si mesmo - e temos o romance
como máquina de narrar, divorciada de seu criador. Com isso, todas as
experiências do sujeito não podem ter continuidade em sua obra, porque o
autor, transformado num problema antes narrativo do que humano, não conta
para o romance.
Um exemplo desta discussão pode ser encontrado em A hora da estrela (livro
de 1977), de Clarice Lispector, que começa inventando um narrador masculino
que vai relatar a história da nordestina Macabéa. Mas Clarice não adere à
moda, introduzindo ironia nesta invenção do narrador. O romance começa com
uma "Dedicatória do autor" (p. 21), onde aparece a explicação de
que na
verdade o autor é Clarice Lispector, embora no corpo do romance ele seja
Rodrigo S. M. Com isso, ela está querendo dizer que apenas formalmente, para
fins críticos, ela se encontra desvinculada do ponto de vista da história,
não se identificando, por sua condição de mulher, com a personagem Macabéa.
Ao inventar um narrador masculino e desmascará-lo, está radicalizando seu
compromisso biográfico com a história narrada.
Muitos escritores, no entanto, levaram a sério este apagamento do autor. Em
suas obras, o narrador pode se metamorfosear, sem nenhuma preocupação de
coerência ou de verossimilhança, tudo se tornando possível.
Essas investidas contra um narrador estável pretendem comunicar a própria
indefinição do autor. Quem escreve este tipo de romance pós-moderno não
é um
ser com espessura histórica, mas um cambiante ser de ficção, o narrador.
Identidade sexual, geográfica, política ou histórica não fazem sentido
nesse
discurso romanesco que quer justamente a dissolução de toda e qualquer
individualidade - não é à toa, portanto, que o romance pós-moderno se
manifesta num período de globalização.
***
Fazer com que o autor reconquiste sua densidade e espessura - este talvez
seja o grande projeto dos escritores não-alinhados a este modo de pensar. No
ensaísmo, Harold Bloom tem apontado tais equívocos, contestando, por
exemplo, o desejo de influência dos escritores contemporâneos em seu livro,
geralmente treslido, A ansiedade da influência . A apropriação afoita do
alheio pode ser uma forma de apagar o autor, pois este passa a existir como
lugar de encontro do outro ou de outros e não propriamente como afirmação
de
uma individualidade. Ao detectar esta busca obsessiva da influência, Bloom
acaba flagrando o projeto de anulação do eu numa literatura em que o autor
aparece, para usar o título de um livro de Ricardo Piglia, como nome falso .
Não se pode, no entanto, reduzir o romance a um jogo de alusões, como tem
sido regra em muitos escritores contemporâneos, embora não se negue a alusão
a antecessores como caminho para a identidade.
No caso do poema, visto a partir do eu lírico, que corresponde ao narrador,
o autor foi afastado do sentido dos textos, valendo apenas como detentor dos
direitos autorais.
Bloom não se acomoda a este autoritarismo crítico, contestando-o em seu
livro Como e por que ler : "Aproveito a ocasião para alertar o leitor
contra
um dogma literário, cada vez mais inútil, de que o 'eu' do poema é apenas
uma máscara, uma persona, e não um ser humano. O 'eu' dos Sonetos
shakespearianos é o ator e dramaturgo William Shakespeare" (p. 104).
Adiante, falando do romance, o crítico norte-americano defende a necessidade
de estabelecer relações de continuidade entre o autor e o livro por ele
produzido: "Atualmente, está em voga na crítica literária negar tanto
a
realidade do autor quanto a do personagem [...]. de modo geral, os
romancistas, por mais irônicos, identificam-se com seus protagonistas"
(p.
184). Esta identificação devolve o autor à literatura e produz no leitor
uma
reafirmação de sua própria humanidade, como fica sugerido na introdução
deste livro: "Para sermos capazes de ler sentimentos humanos descritos
em
linguagem humana precisamos ler como seres humanos - e fazê-lo
plenamente"
(p. 24). Só nos reconheceremos num livro quando ele vier com a afirmação
desta humanidade, que não existe sem a presença forte do autor, este ser
que
transcende sua condição e adquire o direito de viver conosco no momento da
leitura, insinuando-se, com mais ou menos intensidade, neste ou naquele
personagem. O grande romance estará sempre contaminado pela figura do autor,
embora, logicamente, nunca haverá uma correspondência total entre eles,
porque os dois habitam universos distintos. Negar esta conexão, no entanto,
é um atentado contra o poder humanizador da literatura.
É nestes termos que temos que entender José Saramago, que se opôs aos
modismos atuais, propondo-se como um autor que interfere no mundo por meio
de seus personagens. Nele, escritor e obra dividem um mesmo espaço crítico.
Também aqui é sintomático que Saramago tenha sido uma das vozes contrárias
ao processo de globalização. Para ele, a individualidade é um bem
superior,
seja do sujeito, de sua região ou de seu país - uma individualidade que se
alarga por meio da literatura, não para se propor como a única válida (tal
como quer a lógica colonizadora), mas para afirmar a diversidade.
Seus livros são escritos por sua trajetória. Saramago vê a máscara não
no
autor, mas no próprio romance, entendendo que cabe ao leitor chegar à
pessoa
que escreve. Em anotações de 27 de fevereiro de 1994, nos Cadernos de
Lanzarote (vol. I) , expõe tal tese: "Pergunto-me se o que move o
leitor à
leitura não será a secreta esperança ou a simples possibilidade de vir a
descobrir, dentro do livro, mais do que a história contada, a pessoa
invisível, mas onipresente, que é o autor. O romance é uma máscara que
oculta e ao mesmo tempo revela os traços do romancista. Se a pessoa que o
romancista é não interessa, o romance não pode interessar. O leitor não lê
o
romance, lê o romancista" (p. 234). A força desta última afirmação
faz com
que toda a discussão teórica sobre a autonomia do escrito perca o sentido.
O
que conta é este vínculo entre romancista e romance, que recoloca em questão
a ética, caminho para uma literatura menos artificiosa.
Discutindo literatura e compromisso no volume II dos Cadernos de Lanzarote ,
o ficcionista passa a negar a instância narrativa, defendendo a pessoa real
que habita os espaços literários, tanto de quem escreve quanto de quem é
escrito: "Por minha parte, limitar-me-ia a propor, sem mais considerações,
que regressemos rapidamente ao Autor, à concreta figura de homem ou de
mulher que está por trás dos livros, não para que ele ou ela nos digam
como
foi que escreveram suas grandes ou pequenas obras, não para que nos eduquem
e instruam com as suas lições, mas simplesmente para que nos digam quem são,
na sociedade que somos" (p. 118). O escritor não pode abdicar de sua
existência em nome de um modismo literário, que o afasta cada vez mais do
coração tumultuado da realidade. Antes de ser uma construção intelectual,
ele é um ser comprometido com as questões que o rodeiam.
Convém, no entanto, não confundir ficção com memorialismo simples, ou com
confessionalismo. Antes de mais nada, o autor faz ficção, mas uma ficção
que
o representa naquilo que existe de mais vertical: "O que o autor vai
narrando nos seus livros não é a sua história pessoal aparente [...], mas
uma outra, a vida labiríntica, a vida profunda, aquela que dificilmente
ousaria ou saberia contar com a sua própria voz e em seu próprio nome"
(p.195). Esta vida labiríntica faria parte de uma memória alargada, pela
qual o autor transcenderia sua própria história. Escrever seria então
abrir
estes jardins secretos, experimentando alteridades, vividas pelo pensamento
e pela imaginação. É neste sentido que ele entende a memória, conjunto de
móveis imaginários e não território naturalista: "Bem vistas as
coisas, sou
só a memória que tenho, e essa é a única história que quero e posso
contar"
(p. 196).
É possível, no entanto, romper os limites entre o memorialismo propriamente
dito e o romance, adensamento as relações entre narrador e autor, não com
o
desejo de fazer com que eles coincidam, mas buscando uma brusca aproximação
entre ambos. Não sei se seria correto, seguindo Saramago, propor a
inexistência do narrador. Mais importante talvez seja mostrar que ele mantém
uma relação de interdependência com o autor. E a vida labiríntica de que
fala Saramago pode estar na história pessoal aparente do autor que, não
raro, aparece como personagem de ficção.
***
Não foi outro o meu desejo ao escrever Chove sobre minha infância , um
romance que se apropria de um discurso memorialístico, no qual apareço como
autor e narrador a um só tempo. Nele, conto uma história na minha própria
voz e em meu próprio nome. Mas não há, no livro, um Miguel Sanches feito
apenas com a matéria da memória.
Este mesmo projeto teve uma versão poética, a coletânea Venho de um país
obscuro , em que o autor ocupa o lugar do eu lírico, mas na condição de
personagem: o Miguel Sanches do volume de poemas é alguém mais velho do que
o autor e o livro é composto por cortes líricos de sua vida, da infância
à
velhice, embora o autor ainda esteja cronologicamente na meia idade. Como a
memória é antes um recurso, o material memorialístico sofre uma
ficcionalização, que desfaz o aparente tom confessional, abrindo-se para a
invenção.
Situação similar ocorre no romance.
Quem escreve Chove sobre minha infância é o autor em trajes ficcionais,
cuja
voz pode ser ouvida ao longo de todo o livro. Lendo o romance, lê-se também
a pessoa real que o escreveu e o que está além dela.
O protagonista volta à sua infância, fazendo reviver o mundo em que se
formou. Embora use a primeira pessoa do singular, a rememoração não se
fixa
propriamente na trajetória do personagem principal, buscando antes, a partir
dele, pintar o painel de um período.
Depois do primeiro capítulo, em que encontramos o protagonista adulto na sua
volta ao tempo, a história passa a ser narrada do ponto de vista da criança,
numa linguagem simples, lírica, em que o personagem não tem uma noção
precisa dos fatos. Esta limitação perceptiva, própria da idade, vai sendo
progressivamente superada pelo menino, que passa por várias circunstâncias
familiares e sociais, para chegar à visão adulta. A linguagem e o ponto de
vista acompanham esta evolução, de tal maneira que seria mais correto ver o
livro como a história da construção de uma identidade.
A leitura do romance leva o leitor a seguir este processo de consolidação
de
uma identidade problemática na passagem da infância para a adolescência,
momento propício para os traumas.
Tudo bem pensado, poderíamos dizer que quem escreve o romance é a própria
infância, o que exige uma identificação com um certo olhar que começa
ingênuo e termina desencantado. Chove sobre minha infância é um relato
escrito a partir de uma consciência do papel do autor no corpo da narrativa
e isso lhe dá uma espessura autobiográfica, embora a trajetória do Miguel
Sanches que conta a história não coincida, ponto por ponto, com a minha.
Sempre pensei o livro como obra criativa e infiel aos fatos, deixando-me
contaminar tanto pelas traições da memória quanto pela invenção
propriamente
dita.
O drama central do personagem é o desejo de continuação de uma história
familiar que se encontra gravada em seu nome (pois ele é uma espécie de
repetição do Miguel Sanches que o precedeu) e a necessidade de mudança.
Como
ser continuador de uma família marcada pelo fracasso e, ao mesmo tempo,
libertá-la de um aprisionamento às classes mais incultas do país?
É com esta triste herança que ele vai ter que lidar:
Meu avô e meu pai eram analfabetos.
Como pesa este nome:
Miguel Sanches Neto.
Tanto pelo lado materno quanto pelo paterno, o personagem vem de famílias
que fracassaram em outros lugares. Aquele ramo é composto por mineiros que
deixaram sua terra no começo do século e foram para o sertão paranaense
para
tentar a vida no desbravamento da legendária terra vermelha. No outro, temos
os espanhóis, chegados ao Brasil no começo do século e já fracassados na
lavoura de café no interior paulista. No norte do Paraná, eles encontram
mais uma chance, mas sem nenhuma possibilidade de transcendência social. O
protagonista repassa brevemente estas histórias, revelando uma família que
trazia a marca do analfabetismo e era portadora de uma violenta ética do
trabalho, única saída para um povo a quem coube derrubar matas, cultivar
terrenos selvagens e construir a vida numa latitude rústica. É nos anos 70
que a geração à qual pertence o narrador vai ter que dar o passo decisivo:
escolarizar-se. Mas ele chega aos bancos escolares justamente num momento de
fechamento das perspectivas, quando a ditadura militar impõe um regime
autoritário que, nas cidades do interior, ficava visível na completa falta
de oportunidade para se ir além dos medíocres currículos escolares. O
choque
entre o desejo de aprendizagem e o fechamento das oportunidades marca o
protagonista, cujo fracasso confirmaria uma tendência familiar.
Se os dois ramos de suas origens exigem dele um salto rumo à civilização,
há
um elemento novo na família que se coloca, sem ter qualquer noção de seu
papel, ao lado da ditadura: o padrasto, substituto não-reconhecido do pai
morto.
O padrasto nega a possibilidade de transcender seu grupo social e cultural,
obrigando o menino, que quer saldar as dívidas morais de sua família, a
assumir a vida agrária, na condição de trabalhador braçal. O desejo de
adquirir uma cultura letrada entra em atrito com os imperativos de uma vida
prática num meio rural. Se o menino se entregar ao caminho proposto pelo
padrasto, terá que abandonar a trajetória de busca do mundo letrado. Ele
então se põe contra o padrasto e seus valores rústicos com a mesma gana de
quem luta contra a ditadura, contrapondo à ética do trabalho braçal a do
ócio literário, e conseguindo, depois de muitos contratempos, impor-se pela
afirmação de uma identidade problemática.
O romance acaba com o protagonista adulto, voltando à sua cidade. Ele já não
pertence àquele lugarejo, nem à história dos seres que ficaram presos a
ele.
Mas não sabe o que fazer com seu passado, com sua história. Faça o que
fizer, será sempre devedor, sentindo-se descender tanto da família da mãe
e
do pai quanto da do padrasto, apesar de todos os conflitos.
Nesse sentido, quem escreve realmente este romance são estas pessoas
anônimas e sem discurso que o personagem sente fervilhar em sua memória, e
não um eu individualista. É pela fidelidade a este povo obreiro, contra
quem
o menino lutou, que o adulto em que ele se transforma vai se afirmar,
alargando o seu eu e abarcando todo um universo de esforços perdidos.
Talvez o centro deste romance seja a idéia de traição. Contraditoriamente,
para não trair a sua gente, o menino tem que se rebelar contra os valores em
que ela ficou paralisada, criando novas perspectivas. Contra um passado de
trabalho braçal e de silêncio, um presente de vida intelectual.
Facilmente, eu poderia ter mudado os nomes dos personagens, mas era
indispensável mantê-los. Para reforçar a presença destas pessoas no
romance,
optei ainda, atendendo a uma sugestão de minha editora, Luciana Villas-Boas,
por acrescentar um caderno de fotos, intensificando o jogo permanente entre
realidade e ficção. Não fiz isso apenas por motivos de economia narrativa,
mas para dar visibilidade a uma gente que ficou sempre à margem da
civilização e que, por algum capricho genético, produziu um escritor que
tenta transpor para o mundo civilizado todo um desejo de linguagem
longamente reprimido.
Ao estampar - tanto nas fotos quanto nas referências a episódios pessoais -
a trajetória de um grupo real, traduzido para uma dimensão artística e
imaginária, estou querendo dizer, contra a estética do simulacro, que quem
escreve o romance é o homem que sou e é também o país de onde venho.
MIGUEL SANCHES NETO é escritor e crítico literário. Autor de Chove sobre
minha infância, entre outros.
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