Meiotom - poesia


 

 

ALAN MIRANDA

Quem Quer, Quer


Minha vizinha passou mal.
Uma senhora que mora sozinha,
muito amigável.
Dor no braço esquerdo e cansaço.
Me chamaram pra averiguar.
Princípio de infarto, deduzi.
Não sou médico e,
até agora,
não sei por que logo a mim perguntaram o diagnóstico,
mas acreditaram e eu também,
tanto que fui eu que a levei à emergência do hospital.


O médico atendeu,
eu falei bonito, bonito,
com todas as elucubrações
que meu excesso de leitura permitia,
e o doutor, como sempre,
perguntava sem olhar pra mim
e menos ainda para a vizinha-paciente.
O negócio dele é com papel.
Com o formulário.
Deu vontade de perguntar se ele era feliz,
mas deu preguiça.

Então, minha vizinha
foi passeando na maca
para fazer todos os exames,
de siglas das mais variadas,
e saber se estava morrendo mesmo.

Na volta do passeio,
ficamos em uma sala
com mais umas 4 macas.
E todas com gente.
Deitadas.
Encostei, quase sentando, em uma.
Tinha uma moça. De olhos fechados.
Imaginei que ela estivesse dormindo.
Não tava.
Abriu os olhos, me olhou.
Eu acenei com a cabeça.
Viu a minha vizinha
e perguntou o que ela tinha.

- Princípio de enfarto.

Minha curiosidade veio.

- E você?
- Remédio.

Ela estava ali por causa de remédio...?
Demorou um pouco, mas entendi.

- Tentou se matar?

Ela olhou pra mim rindo.
Riso calmo, que eu também imitei.

- Não deu certo, né?
- É... Fizeram lavagem.
- E usou o quê?

Ela disse o remédio,
queria ter guardado o nome, mas esqueci.

- Primeira vez?
- Não.
- ... Quantas vezes?
- Três, com essa.
- Quer mesmo ir...

Ela riu de novo.

- Quero...

Eu não sabia muito o que dizer.
E não tinha pena, nem raiva dela.
Uma simpatia gostosa, acho.

- É amor, né?
- É...
- Ele sabe?
- É meu marido.

Ela morava com ele,
mas brigam muito,
ele ameaça ir embora
e ela se vinga se matando.

- Acho que não é muito esperto. Quer dizer, cedo ou
tarde você consegue. E morrer desse jeito não dói?
- Um pouco.
- ... Ainda quer morrer?
- Agora, neste momento, não.

Chega o médico que ama papel,
E sem tirar o olho dele,
me diz o resultado do infarto da minha vizinha.

- Ela não tem nada. É stress.
- Mas e a dor no braço esquerdo?
- Foi uma pancada, ela não disse que tropeçou e bateu
o braço de leve em casa?
- Não.

Peguei minha vizinha,
Olhei para amiga suicida e disse:

- Tchau...
- Adeus.
- ...

É...
Quem quer,
quer.

Alan, o Miranda.

Alan Miranda é ator, e autor de teatro.
Mais informações no site:
http://www.alanmiranda.blogger.com.br/