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Quem Quer, Quer
Minha vizinha passou mal.
Uma senhora que mora sozinha, muito amigável. Dor no braço
esquerdo e cansaço. Me chamaram pra averiguar. Princípio de
infarto, deduzi. Não sou médico e, até agora, não sei por que
logo a mim perguntaram o diagnóstico, mas acreditaram e eu também,
tanto que fui eu que a levei à emergência do hospital.
O
médico atendeu, eu falei bonito, bonito, com todas as elucubrações
que meu excesso de leitura permitia, e o doutor, como sempre,
perguntava sem olhar pra mim e menos ainda para a
vizinha-paciente. O negócio dele é com papel. Com o formulário.
Deu vontade de perguntar se ele era feliz, mas deu preguiça.
Então, minha vizinha foi passeando na maca para fazer todos
os exames, de siglas das mais variadas, e saber se estava morrendo
mesmo.
Na volta do passeio, ficamos em uma sala com mais
umas 4 macas. E todas com gente. Deitadas. Encostei, quase
sentando, em uma. Tinha uma moça. De olhos fechados. Imaginei que
ela estivesse dormindo. Não tava. Abriu os olhos, me olhou. Eu
acenei com a cabeça. Viu a minha vizinha e perguntou o que ela
tinha.
- Princípio de enfarto.
Minha curiosidade
veio.
- E você? - Remédio.
Ela estava ali por causa de
remédio...? Demorou um pouco, mas entendi.
- Tentou se
matar?
Ela olhou pra mim rindo. Riso calmo, que eu também
imitei.
- Não deu certo, né? - É... Fizeram lavagem. - E usou
o quê?
Ela disse o remédio, queria ter guardado o nome, mas
esqueci.
- Primeira vez? - Não. - ... Quantas vezes? -
Três, com essa. - Quer mesmo ir...
Ela riu de novo.
-
Quero...
Eu não sabia muito o que dizer. E não tinha pena, nem
raiva dela. Uma simpatia gostosa, acho.
- É amor, né? -
É... - Ele sabe? - É meu marido.
Ela morava com ele, mas
brigam muito, ele ameaça ir embora e ela se vinga se
matando.
- Acho que não é muito esperto. Quer dizer, cedo
ou tarde você consegue. E morrer desse jeito não dói? - Um
pouco. - ... Ainda quer morrer? - Agora, neste momento,
não.
Chega o médico que ama papel, E sem tirar o olho
dele, me diz o resultado do infarto da minha vizinha.
- Ela não
tem nada. É stress. - Mas e a dor no braço esquerdo? - Foi uma
pancada, ela não disse que tropeçou e bateu o braço de leve em
casa? - Não.
Peguei minha vizinha, Olhei para amiga suicida e
disse:
- Tchau... - Adeus. - ...
É... Quem quer,
quer.
Alan, o Miranda.
Alan Miranda é ator, e autor de
teatro. Mais informações no site: http://www.alanmiranda.blogger.com.br/
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