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O Prozac
A queda, a perda,
são elementos comuns a ele.
Mas sempre achou que,
quando chegasse de novo a sua vez de sofrer,
a dor viria como vem a dor de barriga, a conta de luz,
ou o desemprego.
Acontece a todos em algum momento,
mas passa.
No entanto,
ele esqueceu o quanto dói o desemprego,
a iminência da luz cortada, a dor intestinal.
Ou seja, ainda não passou.
Ouviu falar do Prozac,
Foi na internet e descobriu que é a pílula da felicidade.
Fala com a amada para comprar pra ele.
- Prozac? O que é Prozac?
- É algo que vai me fazer parar de chorar.
- Você tá mal mesmo, heim? E por que eu tenho que comprar?
- Por que eu tenho vergonha. O cara da farmácia vai descobrir no ato que o
depressivo sou eu.
Ele está magro, abatido, olhos fundos. Uma pena de pessoa.
Depois de muita discussão e riso,
chegou-se ao resultado dele ir na farmácia com ela.
Mas ela pediria como se fosse para alguém conhecido dela.
O que não era mentira.
Na farmácia ela foi muito objetiva.
- Prozac.
A farmacêutica olhou para os dois.
Tava na cara que era para ele,
mas ele continuou na pose.
- É tarja branca. Só com a receita, e ela é recolhida depois da compra. 130
reais.
Fudeu.
Por que ele não podia se auto medicar, meu Deus!
Continuou ainda na pose, mas de lágrima nos olhos.
A amada lhe percebe o desespero e,
como em muitas vezes,
torna-se o homem da relação.
- Tem algum tranqüilizante, algum calmante, que não precise de receita?
- Tem.
- Quanto é?
- 19 reais.
- Eu quero.
Voltou para casa com um calmante fitoterápico
que terá que tomar de 8 em 8 horas.
A amada lê a bula.
Esconde o remédio para que ele não chupe como bala.
Ele reclama.
É um remédio fitoterápico!
- Não acredito em Deus, como quer que eu acredite em homeopatia?
Ela finge que não houve a reclamação do doente.
Ele percebe que falou merda. Fitoterapia não é homeopatia.
Se promete estudar melhor essa questão, quando a dor passar.
Ela senta ao seu lado.
Pergunta se tem algo pra falar.
Qual a causa disso.
- Estou longe e quero voltar, apenas isso...
Ela dá o comprimido. Beija sua testa.
Coloca-o no colo.
Ele engole o comprimido. Recebe o beijo na testa.
Vai para o colo ainda na vontade do Prozac.
O pior não é estar só.
É sentir-se.
Alan, o Miranda.
Roteirista, ator e diretor teatral.
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