| Meiotom - poesia |
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ALAN MIRANDA |
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O Orfão
Na varanda de casa. Sentado. Eloá se aproxima de mim com o seu silêncio e seus 4 anos. Espera que fale algo. Falo. - Minha mãe morreu. Foi em abril. Ou maio, não sei bem. Nunca fui bom de datas. A genitora se queixava muito disso em mim. Coisa assim, rápida. Acordei pela manhã, dei-lhe um beijo, disse tchau e ela, cansadinha, também me disse o último e que não esquecerei nunca. Foi coração. Sem dor. Morte respeitosa, que invejo. É claro que perdi o rumo. É claro que choro até hoje. É claro que sinto muita falta. Sou um Peter Pan assumido, de mal com a vida adulta, e a morte da genitora me obriga a assumir de fez a maturidade. Então, com certo atraso para muitos, anuncio que Alan Miranda é órfão. Ao menos consegui dizer a minha mãe que me tornei ateu. O último grande segredo entre nós. - Meu filho, como foi isso? - Fui descobrindo aos poucos, mãe, todo mundo notava, menos eu. A certeza foi crescendo, crescendo, e agora preciso assumir. - Mas meu, filho, você acha mesmo que morreu e acabou? - Não é bem um achismo, está mais para uma certeza. Houve choro, ranger de dentes. Como assim, um filho que não acredita em nada? - Preciso que me aceite. Sou assim. Me aceitou. E também me passou uns banhos de folhas, pra afastar “os pertubado”. Sinto falta das folhas e das pipocas. A amada é católica, nunca quebrará velas em meu corpo como só a velha fazia. De volta à varanda de casa. Eloá ainda me olha. - O sentimento de estar só no mundo é grande. É estranho. A rebenta espera uns 10 segundos pra perguntar. - ... Por quê? - Por que minha mãe morreu, minha filha... - Vovó não morreu. Ó ela ali. Aponta uma estrela. Eu olho. Os 10 segundos agora são meus. - E quem te disse isso, minha filha? - Ninguém me disse. Olho a infante bem nos olhos. Os olhos de minha mãe. Cor de mel. Quase transparentes. Digo eu te amo, ela ri, vem pro colo, e mal sabe a herdeira que abraço as duas. Alan, o Miranda. Roteirista, ator e diretor teatral. http://twitter.com/alan_miranda_ Atualmente está dirigindo Viúva, Pórem Honesta, com estréia prevista para a primeira semana de dezembro de 2010. |
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