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ANTONIO MIRANDA ENCARNA

KONSTANTINOS KAVÁFIS

Konstantinos Kaváfis —Kωνσταντίνος Πέτρου Καβάφης —, (1863-1933) nasceu e morreu em Alexandria, cidade egípcia que o fascinava  e o desesperava. Pequena, mítica, parte da história seminal dos povos do Mediterrâneo. Descendente  de gregos, viveu no confronto com outras culturas sobreviventes, sob o protetorado inglês. Estudou na Inglaterra em sua adolescência e juventude, anos certamente decisivos para a sua formação intelectual e liberal, não obstante as diferenças com o conservadorismo e o moralismo vitorianos.

Paralela à sua iniciação na literatura, entregou-se à vida amorosa clandestina e desregrada, de que são testemunhos os extraordinários poemas que deixou e que sobreviveram, já que ele resistiu à publicação em vida. Poesia ora sensual ora de ensejo histórico, mas sempre numa linguagem concisa, sem retórica e, não raras vezes, anti-lírica, pós-simbolista.

Antonio Miranda, sem pretender imitar o estilo do autor, transformou as idéias e impressões do poeta sobre sua vida e sua poesia, em um texto poético intitulado EU, KONSTANTINOS KAVÁFIS DE ALEXANDRÍA, a ser lançado em fevereiro pela editora brasiliense Thesaurus.  Obra reveladora da  sensibilidade e da visão de mundo do extraordinário poeta grego ainda pouco conhecido entre nós, apesar das traduções excelentes que José Paulo Paes fez ao nosso idioma. Kaváfis, por certo, é considerado um dos cem maiores poetas do século XX e só agora começa a atrair o interesse do público leitor brasileiro.

Extraímos de EU, KONSTANTINOS KAVÁFIS DE ALEXANDRÍA,  um dos poemas que expressa a profunda impressão sentida pelo grande poeta durante o enterro de um jovem egípcio:

X

Poema de Antonio Miranda

Morreste aos dezessete anos, de prazer.”

Konstantinos Kaváfis

Estou livre, contigo, meu entranhado amigo,

livre de convenções comezinhas, moralistas:

contemplo teu rosto pálido, imberbe,

entre flores brancas; lívido me encontro

e te resgato, sem nenhum recato,

para meu deleite e encanto, póstero.

Comovido, sem o alarde do pranto,

com o entusiasmo contido, suspenso,

pois o entusiasmo em excesso encandila

e, se falta, aniquila, é marasmo.

Te beijo na despedida, sem que me vejam.

Eu nem te conhecia, mas teu corpo

agora me pertence, mesmo ido, sempiterno.