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AS VIRTUDES CANALHAS E OS NERVOS DE AÇO Por Antonio Miranda
Sinceramente, ando deprimido com a situação de falência moral em que nos metemos. Acabo de ler a crônica do ex-Presidente José Sarney em que ele pergunta”Onde está a tomada?”. Eu gostaria de saber onde é a saída, além do aeroporto internacional. A “crise anunciada” desde sempre... É a mesma do final do Governo Sarney, semelhante à do fatídico final do Governo Collor, muito parecida com a queda de ministros durante o governo-tampão do Itamar, lembra muito do que aconteceu depois da votação da reeleição durante o Governo FHC e começou logo no primeiro ano do Governo Lula, para citar apenas os últimos governos... Como já se disse, se criarem novas CPIs, chegaremos aos desmandos de D. João VI e de D. Pedro I ou do primeiro Governador Geral. Acabamos de escrever um livro (Terra Brasilis: http://www.antoniomiranda.com.br/terrabrasilis.htm ) que nos obrigou a uma releitura do Brasil. A uma releitura dos autores que pensaram e interpretaram o Brasil: do Pero Vaz de Caminha ao Roberto Da Matta, passando pelos viajantes, pelos sociólogos, pelos poetas e pensadores, pelos cientistas políticos e pelos historiadores. A nossa crise vem de longe, de nossa formação cultural e política, está fincada nas nossas virtudes e nos nossos defeitos. Temos nervos de aço para agüentar tantas crises e sair delas sem culpa nem vergonha. Existem virtudes canalhas que nos atormentam. Macunaíma é o herói sem caráter que ilustra o oxímoro das virtudes canalhas. Roberto Jefferson encarna a malandragem heróica que nós cultuamos. Vários dos poemas de Terra Brasilis tentam desvelar as origens de nossa identidade. Um deles – o SYLVA HORRIDA –, do início do ano passado, não pretendeu macular a imagem do Presidente Lula (um Silva, na selva) mas refletir o nosso estado de ânimo no momento dos primeiros escândalos, em tudo semelhantes aos que já estávamos acostumados desde os tempos da Colônia. Difundimos outro sobre a confusão partidária em que estamos metidos, para confirmar que sempre foi assim... e que o nosso ufanismo anda de crista baixa desde os tempos do Conde de Affonso Celso. Remetemos os poemas para que releiam. Sinceramente, gostaríamos que os poemas fossem apenas uma brincadeira de mau gosto. Alguns dos textos mandamos sob o heterônimo do Barão de Pindaré Jr., um velho rabugento em que nos refugiamos, às vezes, detrás de uma aparência alegre e descomprometida. PTERODÁTILOS SOBREVOAM AS TORRES GÊMEAS DO CONGRESSO NACIONAL!! SYLVA
HORRIDA Poema do Barão de Pindaré Jr.
Um helicóptero pousa na Praça dos 3 Poderes. Não é um helicóptero, é um pterodátilo ou um fusca com asas. São agora muitos helicópteros ou seriam bicicletas voadoras como mariposas assanhadas - é dia cívico e o Presidente vai ao púlpito mas é o Porta-Voz que vocifera. Mais helicópteros pairando sobre as torres gêmeas do Congresso Nacional e cai uma chuva de guaraná sobre a passeata dos desempregados - chuva de pregos, de notas promissórias como confetes para as massas atônitas. Ministros revezam-se nas cadeiras e um deles vai deixar o cargo vai ser transformado em pterodátilo enviado por sedex para a Favela da Rocinha com toda a biblioteca que o Presidente não leu. Mandam junto, para baratear os custos os Anais do Congresso e a Carta de Caminha. Uma vaca suicida despenca da janela do Ministério Público, enquanto vampiros espreitam dos ministérios (engastados em prebendas e sinecuras) depósitos de sangue e fundos de pensão. Do púlpito, o porta-voz canta o Hino Nacional em esperanto um sindicalista faz reivindicações reiterativas um diplomata brasileiro pensa em inglês e blasfema em francês para o gáudio de jornalistas oficiais que produzem releases em chinês enquanto desfila um batalhão engalanado e descem a rampa do Planalto os lobistas, os assessores especiais pessoal das ONGS, convidados oficiais as delegações nordestinas, um marqueteiro e o que sobrou de um grupo de pagode. O público, faminto, ovaciona. PARTIDOS-REPARTIDOS
Poema de ANTONIO MIRANDA O Positivismo era a unanimidade entre civis e militares no Império do Brasil mas eles estavam divididos e aguerridos (quando não estavam mancomunados). No regime monárquico (democrático e escravagista!) o Imperador era supra-partidário com posições libérrimas em seu poder arbitrário sobre as disputas acérrimas entre conservadores e liberais entre generais e civis. Depois das fronteiras defendidas definidas e pacificadas as espadas, enfim, ensarilhadas vem a malfadada “questão militar” -a politização dos quartéis: um Exército deliberante polemizando pela imprensa em tom beligerante. O Abolicionismo dos conservadores tinha a oposição dos liberais... Havia vanguardas cautelosas e conservadores sediciosos... e o paradoxo nada trivial do conservador liberal... e muita propaganda republicana entre os descontentes fardados. Liberais defendendo ideais republicanos e republicanos exaltando reivindicações liberais. Nada mais conservador do que um liberal mais monarquista do que um republicano! A alforria dos escravos (sem a pretendida indenização...) uniu os ressentidos de todos os partidos. Liberais estrategicamente conservadores. Conservadores tacitamente republicanos políticos compondo e trocando posições e funções nos gabinetes. Crises, cisões, alas, facções fusões entre contrários adversários nos próprios partidos correligionários fazendo oposição. Com a Proclamação da República (um ato heróico, de madrugada) houve então a debandada: conservadores e liberais tornaram-se todos republicanos (mantendo títulos de nobreza) em novos grupos contrapostos em dissidências figadais. Cada partido em seu trono com seu líder ou seu dono seu reduto eleitoral seu mandatário. Assim o quadro partidário: ninguém da Direita todo mundo na Esquerda “aliás, muito pelo contrário”. PAÍS INCONCLUSO
Poema de Antonio
Miranda “Já desisto de
lavrar
este país inconcluso
de rios informulados
e geografia perplexa.”
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
I
Eu, nem tanto. É uma lavra complexa em terras sediciosas e arbitrárias. No entanto, sedutoras. Capitanias hereditárias (promissoras!) atávicas, refratárias à transformação senão pela ação contestatária. Que assim seja! Pela lavra reflexa da palavra incidente sobre o país obtuso e demente. Com bisturis e acicate na visão de gabinete em versos brancos verdes e amarelos. Haja ira e ironia! II
Brasil que o poeta percebe envergonhado de paletó e gravata numa leitura de enfado. Uma geografia perplexa de estados maiores e províncias menores numa política de supremacias e inferioridades sob o disfarce federativo. Depois da Guerra, alçado aos seus questionamentos. Depois de Getúlio Vargas e antes do mesmo Getúlio. Claros enigmas, eleições: pretensas mudanças informuladas, atadas a estruturas pensas a conchavos subterrâneos a acordos de aparência sujeitos às fraturas de qualquer dissidência. Lutar com palavrasparece sem fruto. Rosa do Povo, cancerosa em que o poeta protesta mas desanima assina o livro-de-ponto depois aperta o detonador do poema e desperta as consciências na penumbra surda das massas, no aconchego das musas. OBSERVAÇÃO: este poema faz parte do projeto de
livro-poema TERRA BRASILIS que Antonio Miranda está escrevendo e
distribuindo, em “fascículos”, pela Internet. Estão sujeitos a mudanças de
acordo com as opiniões, sugestões e críticas dos internautas antes de sair
publicado em edição definitiva. A obra pretende abordar temas relacionados
com o espaço (DE ORNATU MUNDI), o tempo (DE REVOLUTIONE MUNDI) e os
valores, crenças e identidades brasileiras (DE ANIMA
MUNDI). PARTICIPE! Mande seus comentários. PASSE
ANDIANTE!!!! E visite a página do autor: www.antoniomiranda.com.br |
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