
Somos todos migrantes. Para ter o direito à vida, somos
expulsos de um lugar que nos guardava como um paraíso. E o nosso primeiro
trabalho é construir um simulacro desse espaço dentro de nós. Construímos
um eu. E jogamos para fora dele tudo o que ousar perturbar a paz
reencontrada. E assim criamos um outro diferente do que pensamos ser.
Somos todos migrantes. Fugimos da solidão procurando a união com os
mais próximos, os mais parecidos a nós mesmos. Criamos um grupo e jogamos
para fora dele tudo aquilo que ameaçar esta frágil comunhão. E assim
criamos nossos inimigos. Pode ser os vizinhos, os moradores de outra
cidade, outro estado, outro país. O de outra cor, outro credo, outra ou
nenhuma posse.
Somos todos migrantes. Migramos da nossa humanidade e
prendemos, humilhamos e devolvemos ao horror aqueles que nos procuram em
busca de um pouco de paz e trabalho. Se antes fazíamos isto às escondidas,
agora criamos leis que nos permitem o mal sem culpa.
Ainda somos
migrantes. Nosso desejo nos faz migrar para um lugar onde todos poderemos
nos reconhecer como semelhantes. Onde todas as diversidades serão
acolhidas, onde a diferença será o nosso traço de união. O outro, o
diferente, alegrará com luz e cor o cinza da nossa mesmice. Este lugar
ainda está longe. Mas é para lá que migramos.
Imagem recolhida em www.radio.usp.br
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