| Meiotom - prosa |
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ronaldo monte |
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Vinha dirigindo meio distraído quando bati de frente com a faixa
exibida sobre o muro da casa de esquina: “Colocamos
mega-hair no nó italiano e na queratina com hora marcada”.
Minha pobre capacidade hermenêutica sentiu-se desafiada por aquele
enigma suburbano.
Pondo em prática o método desconstrutivo, comecei por separar o
texto em pedaços conhecidos e desconhecidos. Meus parcos
conhecimentos de inglês permitiram deduzir que o termo
mega-hair
devia se referir a uma cabeleira farta, daquelas dos rastafaris ou
das louras adventícias.
Hora marcada,
por sua vez, não deveria designar nada de novo além daquele velho
procedimento há muito erradicado dos consultórios médicos. Restaram
apenas, portanto, o
nó italiano
e a
queratina.
Houve um tempo em que os italianos eram desbravadores de mares, tal
como Colombo e Vespuci. Quem sabe o tal nó italiano era alguma
espécie de nó de marinheiro? Quanto à queratina, o dicionário não
ajuda muito. Remete a ceratina, que vem a ser “uma proteína fibrosa
e pouco hidrossolúvel, comum na epiderme, constituinte principal do
cabelo, unhas, pêlos, tecidos córneos... etc.”
De quase nada adiantou recorrer às mulheres da casa, pois são pouco
dadas a salões de beleza, contentando-se com um ritual semanal de
manicure ali mesmo no terraço. Aproveitei um desses momentos para me
livrar definitivamente do meu analfabetismo capilar. Mira, a moça
das tesouras e alicates, não soube dizer muito bem do que se
tratava. Nem mesmo um telefonema para o próprio salão de beleza
esclareceu muita coisa. Soubemos apenas que a coisa era cara. Cento
e cinqüenta reais apenas o nó italiano e duzentos com a aplicação da
queratina. O preço dos cabelos a ser implantados não estava
incluído.
Saí do terraço chateado. O enigma continuava praticamente intacto.
Entrei no escritório, liguei o computador e acessei o google. Foi só
escrever “megahair nó italiano queratina”, e pronto. Todo o mistério
do mundo estava resolvido em poucos segundos. Não vale nem a pena
contar o que é. Quem quiser que vá lá ver.
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