
O velho Wan Tsu já tinha perdido a conta dos
deslocamentos que tivera de fazer,
obedecendo às ordens do Partido. De tanto
que já havia se mudado, não sabia se sua
mulher ainda estava viva, nem qual destino
tinham dado a seus filhos. Jogado de um lado
para outro, a depender dos grandes planos
plurianuais, Wan Tsu tinha se despojado de
seus míseros bens. Tudo o que lhe restava
era a roupa do corpo, as botas surradas e um
velho exemplar do Livro Vermelho do Camarada
Mao Zedong.
Não entendia muito bem porque, mas depois da
morte do Grande Timoneiro, quiseram
confiscar o seu exemplar do Livro Vermelho.
Teve que escondê-lo sob as tábuas do celeiro
da fazenda para onde tinha sido mandado
trabalhar na colheita. Carregou o volume
escondido sob as calças quando foi removido
para apertar parafusos numa fábrica de
trator em Beijim. Agora estava carregando
vergalhões de aço para a construção de um
gigantesco estádio olímpico, mas o seu velho
companheiro estava bem escondido dentro do
forro do colchonete nos fundos do
alojamento.
Wan Tsu nunca reclamou da vida. “A nossa
posição é a do proletariado e das massas
populares”, tinha escrito o Farol dos Povos.
E o velho proletário acreditava que “o
sistema socialista acabará por substituir o
sistema capitalista”, como rezava o Livro,
pois “essa é uma lei objetiva, independente
da vontade do homem.”
Os olhos de Wan Tsu nunca viram o que se
passava no mundo. Quando não estavam
fechados, guardando o sono do velho dono nos
longos deslocamentos, estavam olhando para
baixo, pois o corpo gasto vivia curvado sob
o peso das tarefas. Mas ali, de cima dos
andaimes da construção monumental, seus
olhos se assustaram com a visão maravilhosa
do paraíso socialista. As largas avenidas
apinhadas de automóveis que levavam os
companheiros proletários para o trabalho.
Rechonchudos e bem vestidos, os filhos dos
proletários passeavam com sacolas cheias de
tudo que o homem socialista necessitava para
viver sem os excessos burgueses. Edifícios
luzidios arranhavam os céus abrigando as
famílias proletárias do sol e da chuva, do
vento e da neve. Policiais elegantes e de
luvas protegiam e orientavam os
trabalhadores na volta para casa, depois de
uma dura jornada de trabalho.
Turvados pelas lágrimas, os olhos de Wan Tsu
não viram a chegada do mestre de obras que
em nome do partido informou que aquela tinha
sido a última etapa de trabalho da turma.
Todos tinham que apanhar seus pertences e
abandonar a cidade de Beijim, pois as
Olimpíadas iam começar no próximo mês e o
Comitê Gestor não queria nenhum maltrapilho
perambulando pelas ruas da Capital.
Wan Tsu recordou a sua passagem preferida do
Livro Vermelho e vociferou na cara assustada
do mestre de obras: “A revolução não é o
convite para um jantar, a composição de uma
obra literária, a pintura de um quadro ou a
confecção de um bordado. Ela não pode ser
assim tão refinada, calma e delicada, tão
branda, tão afável e cortês, comedida e
generosa. A revolução é uma insurreição, é
um ato de violência pelo qual uma classe
derruba a outra."
Antes que a polícia atendesse aos apitos de
alerta, Wan Tsu atracou-se ao mestre de
obras e jogou-se com ele do último andar do
colosso olímpico. Depois do baque, uma
mancha vermelha maculava o asfalto
proletário de Beijim.
Clube do Conto, 16.08.2008