| Meiotom - prosa |
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ronaldo monte |
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À uma e meia da madrugada, entramos em trabalho de parto. Entramos
eu e Glória, os avós, Flávio, o marido e,
last but not
the least,
Muito naturalmente, chispamos para a maternidade, pois nossas
contrações já atacavam em menos de cinco minutos de intervalo.
Parteira e pediatra a postos, decidiu-se que o parto seria ali
mesmo, no quarto. Nada mais natural, portanto, que eu me retirasse,
pois tinha clara consciência da minha inutilidade naquele momento.
Talvez essa tenha sido a decisão mais errada da minha vida. Fiquei
andando feito um bicho enjaulado pelos corredores, ouvindo os gritos
de minha filha e imaginando todas as torturas que lhe estavam sendo
infligidas por aquele bando de perversos. Por vários momentos estive
a ponto de irromper no quarto de arma na mão e gritar: isto é um
sequestro. Todos para a sala de cirurgia.
Mas de repente fez-se um silêncio logo quebrado por um vagido
apaziguador. Foram-se os monstros e em seus lugares estavam uma
médica perfeita, uma pediatra competente, uma avó em lágrimas, um
pai em transe e uma mãe em exausta beatitude.
Foi a primeira vez que testemunhei auditivamente um parto natural.
Pelo que sofri, passei a achar que não existe nada mais natural do
que uma boa cesariana. Mas todas dizem que é bem melhor a
recuperação rápida do que a chateação pós-cirúrgica. Não tenho como
optar.
Natural mesmo é o nosso resguardo. Há uma tendência generalizada a
ficar na cama, voltar depressa pra casa, nadar em lágrimas a
qualquer pretexto. Natural mesmo é o clima amoroso que se instala em
toda a casa contaminando outros endereços em volta do mundo.
Natural, muito natural é que eu esteja aqui tentando disfarçar um
sentimento transbordante que me causa a condição de avô de Anita.
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