| Meiotom - poesia |
|
|
|
ronaldo monte |
Acabou

Até que enfim, acabou. Chega ao fim a mais infame campanha
política que já testemunhei em toda minha quase longa vida. Já
não aguentava mais o Serra com seu Paulo Preto e a Dilma com sua
Erenice, ambos enrolados em piruetas verbais para se
descontaminar da proximidade insalubre dos velhos companheiros
de jornada. Já não aguentava as injúrias sem fundamento lançadas
pelos candidatos estaduais contra aliados de anteontem.
Basta. Acabou. Sigam, os vitoriosos, para o inferno climatizado
dos gabinetes ornados de mármore e cristal. Voltem, os
derrotados, para o purgatório de suas varandas, lambendo as
feridas enquanto esperam alguma nesga de poder proporcional ao
número de votos obtidos.
Vitoriosos ou derrotados, saiam, por favor, da minha frente. Não
agüento mais a gritaria, os sorrisos forçados, os abraços
ruidosos, os dentes arreganhados do lobo por trás da máscara de
cordeiro.
Quero de volta a normalidade dos crimes passionais, dos ajustes
de conta do tráfico, dos acidentes naturais, da corrupção
cotidiana que já não causa indignação, de tão banal.
Quero as ruas sem bandeiras, sem os entulhos dos santinhos
jogados fora no rastro das carreatas. Quero de volta o lixo
comum entulhado nas calçadas, os cruzamentos devolvidos aos
mendigos, vendedores de bugigangas e limpadores de pára-brisas.
Fica, mais uma vez, o gosto amargo de que seremos nós, os
eleitores, que pagaremos a conta alta dos gastos de vencedores e
vencidos. Fica, mais uma vez, a certeza de que seremos
solenemente esquecidos em nossos anseios de cidadania, até que
chegue a próxima temporada de iniqüidades.