As coisas se ajeitam
Eu
estava começando minha vida de
adulto, com mulher, uma filha, uma
faculdade para pagar, sem falar de
feira e aluguel. Some-se a isto, um
pequeno detalhe: estava
desempregado. Por mais que meus
cabelos grandes, minhas calças jeans
e uma bela bolsa de couro de alça
longa fizessem pensar o contrário,
depois de algum tempo comecei a
ficar apavorado. Comecei a ter
dúvidas sobre o futuro que havia
traçado para mim. Não lembro muito
bem qual era, mas era um bom futuro.
Era impossível alguém na minha idade
não ter um bom futuro. Pois bem,
alguma coisa ruim dentro de mim
começou a querer envinagrar os meus
sonhos.
Foi quando aconteceu uma das poucas
coisas extraordinárias na minha
vida. Estava chamando o sono,
naquele estado de lusco-fusco entre
a vigília e o sonho, quando me
apareceu um anjo velho, cabelos
compridos em caracóis, poucos dentes
na boca semi-aberta. Ele me olhou
com uma cara marota, feito quem não
estava ligando a mínima para o meu
sofrimento. Aproximou-se bem da
minha cara e me disse com firmeza:
toque em frente que as coisas se
ajeitam.
Saí do meu estado hipnótico com um
sentimento de grande simpatia pelo
velho anjo. Com a sua experiência,
sabia muito bem que eu não tinha
condições de assimilar nenhuma
máxima filosófica. Tampouco teria
paciência para aquele discurso
metido a besta dos anjos do Velho
Testamento. Disse-me tudo o que eu
precisava ouvir nos meus vinte e
poucos anos. E foi exatamente o que
fiz. Toquei em frente e as coisas se
ajeitaram.
Muito tempo depois, as coisas
devidamente ajeitadas, o anjo velho
me apareceu de novo. Desta vez, não
me disse nada. Remava lentamente uma
canoa sobre um rio escuro e lento.
Vi, de longe, suas asas lodosas, com
as pontas mergulhadas nas águas. Ele
olhou para mim com o seu sorriso
maroto e fez um leve sinal com a
cabeça me mostrando o muito que
ainda tinha a remar. Lembrava um
pouco Caronte, o barqueiro da morte.
Mas não levava ninguém no bojo da
canoa. Passava apenas para me
lembrar que ele mesmo tinha como
sina tocar para frente a barca dos
seus dias. E se as coisas se
ajeitavam para um anjo, haveriam
também de se ajeitar para um pobre
mortal como eu.
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