Meiotom - prosa


 

 

                                 ronaldo monte

 

Ao animal que vai morrer

 

Há uma certeza inabalável no olho do animal que vai morrer. Vejam o boi no matadouro, o rato na pata do gato, o homem à margem do Hades.
Há um certo ar de nunca, um quê de último ato, uma antecipação da falta que dali a pouco se fará.

É obsceno se opor a esta certeza. Qualquer piedade é pornográfica. O Animal que vai morrer não nos pede nada. Ele quer apenas que fiquemos aqui, no cais dos sobreviventes, passivos ao desatar dos nós que deixarão fluir a barca de Caronte.

Há uma certa urgência no olho do animal que vai morrer. Ele tem pressa em apagar de vez a visão de nossas faces constritas e piedosas. Pois é esta visão que o impede de nos esquecer e se entregar por inteiro à novidade do nada.

Imagem obtida em: quadradoredondotriangular.blogspot.com