Os olhos de Anita

Eu gostaria de viver no mundo
refletido nos teus olhos. Mundo de
manhãs serenas, tardes apenas mornas
e noites de ilha sem farol.
Eu gostaria de dormir nas redes
avarandadas dos teus olhos. Para ter
pequenos sonhos, realizar ínfimos
desejos e acordar ávido de novas
imagens.
Teus olhos já choraram lágrimas
prematuras que o amor e o cuidado
estancaram. Sentiste cedo que o
mundo dói, pois o mundo, então, era
teu corpo. Agora já sabes toscamente
que existe um mundo fora de ti. E
sorves este mundo com teus olhos,
filtrando já o que é bom e o que é
mau. Tua mãe é boa. A ausência de
tua mãe é má. O peito que dá o leite
é bom, é mau o peito que não chega
na hora em que dele necessitas. O
aconchego morno é bom, muito calor
ou frio não presta. É isto e mais
teus olhos que constroem um mundo
dentro de ti.
Eu queria teus olhos emprestados
para fazer um mundo novo para mim.
Um mundo diferente deste que meus
olhos me mostram. Eu queria teus
olhos para ver novas manhãs,
inaugurar um céu e um mar estalando
novidades em minhas retinas. Para
ver o sol arrastar as sombras das
coisas tarde a fora até que viesse a
noite e com ela o meu descanso
sossegado.
Eu queria morar nos teus olhos para
olhar nos olhos dos outros e decidir
na hora para quem estender os
braços. Eu queria fitar-me com teus
olhos para me ver um pessoa melhor,
mais solidária, mais confiante
naqueles que repartem comigo esta
visão de terra devastada que eu não
queria que teus olhos vissem.