Cada
vez mais tendo a crer que as coisas
têm vida própria. Certas coisas
aparecem e desaparecem de nossas
vidas sem que saibamos de onde vem
nem para onde vão. Não estou falando
das canetas bic, pois já se sabe que
estas são sondas enviadas por
extra-terrestres para bisbilhotar
nossas vidas. Falo de coisas
esquisitas, que temos certeza de que
não gastaríamos um tostão para
comprá-las. De repente, elas
aparecem em nossa mesa de trabalho,
na mesa de cabeceira ou dentro da
gaveta dos talheres.
Agora mesmo estou de frente para uma
coisa esquisita, que não tenho a
menor suspeita de quando a comprei
ou ganhei. Ela chama-se Microtape e
supostamente é fabricada pela
Tipp-Ex. Tem um formato pouco
anatômico e uma cor azulada meio
repugnante. Intrigado pela sua
presença em minha mesa, abri sua
tampa de plástico fosco e me deparei
com uma espécie de cabeçote do qual
saíam duas fitas (o que justifica o
nome Microtape), uma branca e outra
transparente. Nenhuma das duas era
adesiva.
Passei a me sentir na obrigação de
encontrar alguma utilidade para tal
buginganga. Nestes tempos de
exaustão dos recursos planetários,
deve-se pensar muitas vezes antes de
jogar alguma coisa fora. Para alguma
coisa a coisa haveria de servir.
Não consegui inventar nenhum uso
para ela. Talvez, em caso de
necessidade, sirva para amarrar o
cabelo de uma de minhas netas. Ou
estancar pequenas hemorragias. Ou,
ainda, amarrar os caules das flores
para que se armem
em buquê. Pelo
menos para uma coisa me serviu o
encontro inusitado com esta coisa.
Estava sem assunto para a crônica e
ela piscou para mim lá do canto da
mesa. Eis para que servem certas
coisas.
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