| Meiotom - poesia |

Pesa sobre os cronistas a acusação de só
falarem dos próprios umbigos. Considero
isto uma injustiça. Todos os estilos
literários são umbilicais. Poetas,
contistas, romancistas, bons ou maus,
todos eles falam disfarçadamente de seus
umbigos. Escondem-se atrás de um “eu-lírico”,
de um “narrador”, de um “fluxo de
consciência” experimentalista, mas, no
fundo, suas atenções sempre estão
voltadas para aquele botão espetado no
meio de suas barrigas. Na crônica isto
fica mais à vista por conta da urgência
com que ela é escrita. Geralmente da mão
pra boca, sem muito tempo para tapeação.
Algumas mentes mais maldosas já devem
estar desconfiando dessa enrolação
preambular. É isto mesmo: vou falar mais
uma vez do meu umbigo.
Como faço com uma vaga periodicidade,
estou dando um tempo pra bebida. É que
minha festa de fim-de-ano só acabou no
dia três de fevereiro. Meu fígado me deu
um ultimato e cá estou eu, há um mês e
uma semana sem uma gota de álcool. O que
tem desta vez de diferente, é que eu
estou gostando da abstinência. Ando
morrendo de sono e consigo dormir a
qualquer hora do dia. Com isto, a cabeça
está mais leve, junto com o corpo que já
enxugou uns dois quilos.
Tenho sonhado muito e me lembrado dos
meus sonhos. Eles estão me levando para
lugares íntimos, que reconheço como
meus, mesmo que nunca antes tenha estado
lá. Geralmente visito alguma ruína
recoberta de mato e arbustos. São
lugares antigos, de uma antiguidade
irrecuperável que o tempo se ocupa