| Meiotom - prosa |
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ronaldo monte |
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Para meu irmão Othon Celso
Depois de
bem lacrada a sepultura, esgotadas todas as lágrimas possíveis, os que singraram
o tempo espesso da vigília têm pressa em sair dali. Cansados da roda em volta do
esquife, anseiam pela intimidade de uma mesa, em torno da qual se quer comer e
beber em memória do morto.
Pouco importa o sabor da comida improvisada. O
que se quer é ouvir as vozes íntimas e em cada uma delas reconhecer um pouco da
voz ausente. Pouco a pouco, a conversa vai se afastando das coisas da morte. A
gravidade da falta vai aos poucos sendo vencida pelo relato dos pequenos casos,
a lembrança dos cacoetes, das frases preferidas que não mais se
repetirão.
A trama das palavras realiza uma vez mais o seu milagre. Cada
relato revela uma pessoa diferente, vista como pai, avô, irmão, sogro, amigo. O
que era um, agora se torna múltiplo. Revive de formas diversas na memória e no
coração de cada comensal.
Desfeita a mesa, começa um novo tempo.
Lentamente, a densidade da perda irá cedendo espaço para o sentimento leve da
presença do ente amado dentro de nós. E desta forma ele partilhará conosco das
infinitas surpresas que a vida nos reserva. Esta é a prova da vida após a morte.