| Meiotom - prosa |
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ronaldo monte |
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Os
judeus celebram a Páscoa em memória da libertação da escravidão no
Egito. Os cristãos comemoram a passagem para o novo tempo que a
ressurreição do cristo anuncia. Liberdade, renovação. Que sentido
fazem estas palavras fora do seu contexto estritamente religioso e
litúrgico?
Um olhar mais atento sobre o mundo nos mostrará que a única
liberdade visível é a que se anuncia como liberalidade do mercado. E
todos sabemos o quanto isto tem acentuado a desigualdade entre os
países e aprofundado a distância entre as classes. Quanto à
renovação, ela se dá do ponto de vista estrito das mercadorias, o
que nos empurra para um processo alucinado de consumo.
A humanidade ainda não conheceu a Páscoa. Somos todos errantes.
Vivemos à deriva num deserto ético em que só os sistemas religiosos
parecem apontar alguma salvação. E nisto reside a nossa miséria e
nossa esperança. Miséria, porque todo o nosso percurso histórico
ainda não conseguiu prover a humanidade dos instrumentos
tecnológicos e ideológicos necessários a uma convivência de bonança
e harmonia. Esperança, porque alguns desses sistemas religiosos
apontam para certas saídas éticas que contemplam uma convivência na
diversidade.
Judeus ou cristãos, muçulmanos ou budistas, pagãos ou ateus, nenhum
de nós conheceu ainda a liberdade ou a renovação. Vivemos todos
ainda à espera de uma Páscoa que nos resgate a todos deste êxodo em
que ainda não vislumbramos nenhuma terra prometida.
E enquanto esperamos a Páscoa, reconheçamo-nos humildemente como
seres de incertezas e derivas. Que a humildade seja o nosso único
ponto
Ilustração :"Le Radeau de la Méduse", de Théodore Géricault
(1791-1824).
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