| Meiotom - poesia |
Primeiro,
é o tempo do trauma. A compreensão vem só depois. Estamos todos
traumatizados com a tragédia do Realengo. É impossível para
todos nós compreender o que leva um homem a invadir uma escola e
atirar a esmo, matando e ferindo crianças e adolescentes. É
doloroso assistir pela televisão o drama das mães, colegas e
professores das vítimas, todos atônitos, como nós, frente à
brutalidade do acontecimento.
Não satisfeita com o nível de dramaticidade inerente ao fato, a
mídia se encarrega de multiplicá-la, aumentando, assim, o
impacto traumático sobre os indivíduos atônitos. Numa pressa
irresponsável em busca de audiência, exibem a opinião de
supostos especialistas que, lisonjeados pelo privilégio, ofertam
peças mal-acabadas de achismos travestidas em afirmações
científicas.
Nada que se diga agora poderá nos explicar os motivos da
mortandade do Realengo. Não adianta tentar compreender um ato
não-racional com os argumentos surrados da velha razão
cartesiana. O fato de não suportarmos a ambigüidade e a falta de
sentido nos leva à busca apressada de causas que justifiquem os
efeitos e nos leve de volta ao terreno seguro das certezas.
No caso específico do Realengo, estamos ainda no primeiro tempo.
O tempo do trauma. Agora, nenhuma compreensão é possível, pois é
próprio do trauma a falta de sentido. Só depois, a paciência nos
mostrará o caminho para uma outra racionalidade. Uma maneira
nova de ver e ouvir solidariamente o sofrimento humano. Uma
forma de acolher e conviver com o estranho e inquietante que se
move nos outros e em nós mesmos. Por enquanto, sejamos
pacientes. Chegará o momento de uma outra razão que nos trará
novos sentidos. Mas não agora. Só depois.