| Meiotom - prosa |
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ronaldo monte |
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Minha mãe se casou com um homem bonito, de coração brando e alma de
artista. Fazia teatro, pintava aquarelas, escrevia poemas. A casa de
vila, num subúrbio perdido, estava sempre com o aluguel atrasado.
Minha mãe sustentava a casa dando aulas de inglês. Meu pai passava
as manhãs dormindo, acordava para o almoço e saía no meio da tarde.
Voltava de madrugada, de olhos vermelhos e um sorriso perdido na
cara. Minha mãe dormia sentada na cadeira de balanço, comigo no
colo. Mais tarde me contou. Não esperava meu pai. Um dia, sonhava,
um homem entraria pela porta e a levaria para uma casa bonita, com
um jardim florido, numa rua com árvores e um carro na porta.

Minha avó se casou com um homem de bigode, sério e calado, dono de
um armazém sortido na rua principal de uma cidade bonita do
interior. Meu avô fechava o armazém às seis da tarde, jantava calado
e saía para jogar baralho. Um dia, chegou afobado, quase de manhã.
Acordou minha avó e ordenou que arrumasse a mudança. Tinha perdido o
armazém e a casa no carteado e assim que clareasse ia entregar as
chaves para o ganhador. Se mudaram para uma casa de taipa no fim da
rua da Lama. Minha avó passava as noites acordadas olhando a porta.
Mais tarde, contou pra minha mãe. Não esperava meu avô. Um dia,
sonhava, um homem bonito viria e sairiam pelas ruas de mãos dadas,
primeiro para o cinema, depois tomar sorvete, depois namorar na
praia, depois morrer de amor.

Minha bisavó casou com um homem sem sorte. Estava sempre no lado
errado da vida. Entrou na Coluna Prestes quando ela passou pela
Paraíba, em 1926, de volta do Piauí. Fugiu quando o último recurso
da tropa era se refugiar na Bolívia. Minha bisavó ficou dois anos
esperando a volta do herói. A sorte lhe sorriu um pouco quando o
marido foi trabalhar numa torrefação de café. Já era quase gerente
quando veio a crise de 29 e o preço do café começou a desabar. A
torrefação quebrou, o casal se mudou com os filhos para o Recife.
Ainda viviam como remediados com a sobra das economias. Dava ainda
para pequenos luxos, como tomar uma gasosa na Confeitaria Glória, no
bairro da Boa Vista. Estavam justamente lá, num fim de tarde
friorenta de julho, quando um homem desesperado gritou “

A mãe de minha bisavó foi roubada de casa por um fazendeiro. Quando
ele perguntou se ela queria fugir, não disse que sim nem não. Mas
deixou a janela do quarto aberta. Qualquer coisa seria melhor do que
aquela vida miserável de trabalhar no eito. Foi morar numa casa
grande, quase uma tapera. O pai do seu marido tinha sido rico, dono
de escravos e muitos pés de algodão.Mas veio a Lei Áurea, veio a
república, veio a praga que acabou com o algodoal. Agora seu marido
ficava ali, sentado na espreguiçadeira, fazendo contas de quanto
estaria colhendo se ainda estivesse plantando. A mulher ficava
sentada nos batentes da entrada, olhando os rachões da terra até que
os olhos ardessem com tanta luz. Aí então, os fechava para sonhar
que um dia, um homem vestido de couro viria buscá-la em seu cavalo.
E sairiam a galope até um lugar coberto de grama verde, cortado por
um riacho perene, onde se amariam rodeados de bois e passarinhos.

Não sei onde começa esta lenda do homem que virá. Talvez ela se
perca entre as lanças de Alcácer Kibir, onde mais de um homem
desapareceu, além de Dom Sebastião. Só sei que esta espera acaba
aqui, comigo. Se algum homem quiser me encontrar, que venha sem que
eu o espere. E não me queira levar para lugar nenhum. Pois estou bem
onde estou, contente com quem sou. Tenho meus sonhos, claro. Mas o
tempo em que vivo não comporta lendas.
Imagens obtidas em:
http://www.terrabrasileira.net/
(vaqueiro)
zig.blogs.sapo.pt (homem com flores)
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