| Meiotom - poesia |
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ronaldo monte |

Sempre achei que esta eleição fosse para Presidente da República
e, aqui na terrinha, para Governador do Estado. Por isso,
esperava que a propaganda dos candidatos priorizasse os temas
ligados às políticas públicas necessárias ao bem-estar do nosso
povo e à estabilidade econômica do País. Mas pelo nível e pela
qualidade dos argumentos, tudo me faz parecer que estou sendo
convocado para eleger o sacristão da de paróquia ou o diácono de
um templo evangélico.
Nunca antes na história deste País fui tão bombardeado por
mensagens do mais baixo nível fundamentalista. Nunca o demônio
foi tão veementemente convocado como cabo eleitoral. Nunca vi
candidatos com tanto medo de arder no fogo do inferno. Ou de
perder o voto dos eleitores que se deixam enganar pelo discurso
dos pseudo-fundamentalistas.
A grande vedete da discussão, a nível nacional, é a questão da
legalização do aborto. Ambos os candidatos estão na maior saia
justa, pois, como pessoas esclarecidas que são, em algum momento
de suas vidas devem ter se declarado a favor do aborto
assistido. É divertido ver as piruetas verbais que são obrigados
a fazer para desmentir suas antigas posições.
Os candidatos prestariam um imenso serviço à nação se
declarassem que a legalização do aborto é uma questão de saúde
pública. Contra o argumento farisaico da defesa da vida, basta
mostrar as estatísticas das mulheres que morrem ao se submeter
ao trabalho dos clássicos fazedores de anjos, bastante
conhecidos e freqüentados por muitos dos fundamentalistas quando
querem se livrar da aporrinhação de um filho fora do casamento.
Quanto à baixaria a nível estadual, não me espantaria se o
próprio diabo saísse vitorioso no segundo turno, tanta é a
gritaria em torno do seu nome. Parece que os próprios candidatos
esqueceram que o Estado é laico. Da forma como seus
estrategistas de campanha dão ênfase à pureza de suas convicções
religiosas e atacam as supostas ligações do adversário com o
capeta, parece que a eleição é para algum cargo de prestígio
duvidoso na igreja da esquina.
Por mais que o Serra se pareça com Dom Helder, não confio nele
para administrar o apurado das esmolas da paróquia. E Dilma não
me convence que saiba o menor versículo da Bíblia de cor.
Portanto, parem de nos tratar como um rebanho de idiotas e
mostrem seus verdadeiros programas de governo.