| Meiotom - prosa |
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ronaldo monte |
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Definitivamente, a
vida não é para principiantes. A minha, pelo menos, não é. Não fez nem três dias
que perdi um irmão e já me vem a notícia de que vou ganhar mais um neto (ou
neta, ainda não dá pra saber). E eu, que mal me introduzia nas sombras do tempo
do luto, sou convocado às pressas ao tempo da espera.
O trabalho do luto
nos serve para limar as arestas contundentes do morto, esmaecer os tons
rascantes de sua índole, até que fique na memória um quadro resumido de suas
qualidades, com o qual conviveremos em paz pelo tempo que nos sobra. O luto é
uma conta de diminuir.
A espera de um
nascimento é, ao contrário, uma conta de somar. A notícia nos coloca frente a
uma tela em branco que nos cabe aos poucos preencher com os traços do nosso
desejo. O rosto deve ter o contorno suave da mãe, com certos traços mais fortes
do pai. Claro que não deve faltar alguma coisa dos avós, detalhes que admiramos
nos tios, um fio da beleza de algum parente distante. Daqui a um tempo, vamos
saber se é menina ou menino, o que nos exige certas correções no projeto. E ao
fim dos breves nove meses, temos que fazer os ajustes finais entre o sonho e a
sua realização.
Estava eu, pois, em plena operação de diminuir, quando me
atropela a exigência de uma conta de somar. E aqui estou, diminuindo com uma das
mãos e somando com a outra. Como um pedreiro contratado para uma demolição e
que, mal começa o trabalho, sabe que terá, ao mesmo tempo, de construir uma nova
casa no mesmo terreno. Ainda bem que não sou
principiante.
Imagem obtida em:
www.mexicanbeautygiftshop.com
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