| Meiotom - prosa |
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ronaldo monte |
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O tempo voa. Um portal de informações me lembra: faz cinqüenta anos que morreu o meu primeiro Papa. Eu tinha onze anos. Meu pai tinha deixado de ser crente e minha mãe, com medo de que eu ardesse no inferno, me matriculou na escola da paróquia de Água Fria, no Recife, onde eu deveria me iniciar nos mistérios do catolicismo. E um dos mistérios mais indecifráveis era sobre o que fazia o bom pároco pra lá e pra cá no seu jipe, sempre acompanhado de duas ou três jovens paroquianas.
Uma certa manhã, todos reunidos no salão nobre da escola, transido em
sofrimento, o padre nos anunciava a morte de Pio XII. Minha condição de
católico adventício não me deixou contaminar pelo clima de consternação
que tomou conta de todos. Como todas as tragédias têm seu lado bom, as
aulas foram suspensas. No caminho de casa, pude ver que o clima de
orfandade tinha se alastrado por toda a rua, todo o bairro. Em casa, sob
os olhos marejados de minha mãe, soube pelo rádio que era o mundo todo
que sofria de súbito desamparo. Eu me senti um estrangeiro, alheio
àquele sentimento de perda e sofrimento.
Até hoje, cinco papas depois, não consigo compartilhar da comoção que se
alastra pelo mundo toda vez que morre um Papa. Para mim são mortais
comuns, sujeitos, portanto, à morte. Lutaram ferozmente pelo poder e o
conseguiram na esperança de viver no fausto e no gáudio o resto de suas
vidas. Se tivessem um mandato limitado, pouquíssimos deles resistiriam
como figuras históricas dignas de respeito. Aí estão as suspeitas cada
vez mais prováveis sobre as vistas grossas feitas pelo mesmo Pio XII à
perseguição dos judeus pelos nazistas. Um dia saberemos dos bastidores
da cruzada de João Paulo II e sua Opus Dei contra os avanços da doutrina
do Vaticano II e suas investidas obscurantistas contra os avanços na
ciência e nas relações sociais.
Numa coisa, porém, a igreja católica merece o meu respeito: é a sua
capacidade de produzir espetáculos. Seja na exibição terrificante dos
autos de fé medievais, ou no minucioso planejamento dos funerais de um
pontífice. Se existe hoje uma sociedade do espetáculo, sua precursora é
a igreja católica, com seus paramentos exuberantes, suas piedosas e
sangrentas vias sacras, suas catedrais magníficas banhadas de arte e
ouro.
Tive sorte em não ser envolvido pelo comoção global causada pelos
funerais do controvertido Pio XII. Era apenas mais um espetáculo que a
velha senhora oferecia ao mundo. Nada comparável ao sucesso permanente
do seu carro-chefe publicitário, o melhor exemplo de espetacularização
da morte nos últimos dois mil anos.