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Resta ainda uma fachada do que antes era casa. As baronesas do açude fingem de pasto para bois imaginários. Fantasmas

banham-se nas águas que tomaram os lugares onde se comia, se conversava, se dormia depois do amor. As almas dos bois,

dos carneiros e das galinhas misturam-se às alminhas dos pagãos e às almas velhas que de tanto pecar perderam o direito

ao repouso eterno. A luz solar afasta qualquer possibilidade de descanso aos mortos prisioneiros de um tempo de nada.

Tempo que não passa por não ter para onde passar. Ninguém guarda esses mortos na memória.

Ninguém vai reerguer a casa que bóia nas águas do esquecimento.

Esquecer não é passar. O tempo sabe disso. O tempo sabe também que a memória é coisa viva, mutante. De tempos em tempos,

a memória se transforma. As dores se dissipam, os males se dissolvem. A dor e o mal são apenas sinais do que não deve ser repetido.

O tempo é isto. Uma estrada marcada por sinais. Ali fomos felizes. Mais adiante sofremos. Logo depois tivemos um pouco de paz.

O tempo é nossa matéria e nosso herdeiro. Pois quando não pisarmos mais o chão da terra, será o tempo que dirá de nós aos que ficam.

Será também o tempo que cuidará do nosso esquecimento.


Estamos um ano a menos do nosso destino de ruínas. Mais cedo ou mais tarde, as águas inundarão o campo a nossa volta.

E quando alguém passar nos lugares em que um dia vivemos, verá talvez um açude coberto de baronesas onde antes pastávamos com os bichos.

E caberá somente ao tempo determinar se uma mínima fachada restará como memória do corpo que nos serviu de morada.