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Tempo dos ipês

Existe um tempo dos relógios e dos calendários, uma espécie de
utensílio criado pelo homem para fixar e controlar essa coisa
inefável que escorrer entre os dois pontos incógnitos de sua
existência. Mas existe outro tempo que o homem contempla. É o
tempo do mundo, do sol e da lua, do estio e da chuva, do verde e
do cinza, do quente e do frio. Dentro deste tempo, o homem se
encontra como coisa entre coisas. Seu poder é nulo. Resta-lhe
apenas submeter-se ao círculo das repetições, até que ele mesmo
um dia não retorne. Outros retornarão.
É dentro deste tempo fora dos relógios que se repete, todo fim
de ano, no coração da capital da Paraíba, a floração dos ipês.
Quase toda a população da cidade passa ali pela lagoa. Todos os
ônibus a contornam. Quem tem carro, vez por outra passa por ali.
Um belo dia, de fato, um belo dia de dezembro, a alma dos
passantes se espanta com as copas douradas dos ipês.
Aí acontece uma mágica na cidade. Quem chega ao trabalho
pergunta: vocês viram os ipês da lagoa? Quem volta pra casa,
anuncia: os ipês da lagoa floriram. Quem arranja um namoro
convida: vamos ver os ipês da lagoa? Os antigos amores revivem
sob o teto dourado dos ipês da lagoa.
Depois vem o vento e derruba as flores mais velhas. Uma parte do
ouro cai do céu e vem forrar o chão das margens da lagoa. Então,
a mágica se completa. As pessoas se rendem por completo ao
milagre do amarelo.
Mais uma vez é tempo dos ipês no coração da cidade. Mais uma
vez, o ouro dos ipês se instala no coração das pessoas. Daqui a
pouco, as folhas voltarão a ocupar o espaço das flores. Sabemos
disto e ficamos um pouco tristes pela passagem deste tempo. Mas
nos despedimos dele com uma ponta de esperança de que estaremos
aqui quando voltar o tempo dos ipês.