| Meiotom - prosa |
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ronaldo monte |
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Ainda tem gente que continua mantendo opiniões conclusivas sobre o
caráter das pessoas, como se o ser humano fosse uma tela uniforme e
monocromática. O exemplo do ladrão de carro de Passo Fundo, no Rio Grande do
Sul, pode nos ensinar muito sobre a cordilheira multicolorida que constitui cada
um de nós.
Depois de furtar um carro numa madrugada, o ladrão descobriu,
quarenta minutos depois, que uma criança dormia no banco de trás. Levou o carro
para os fundos de um posto de gasolina e telefonou indignado para o plantonista
do 190: “Vou ser sincero: eu roubei um carro que tinha um piazinho dentro e eu
não vi. Manda uma viatura lá pegar o guri e avisa ao filho da puta do pai dele
para não fazer mais isso. Avisa que, da próxima vez que eu pegar esse auto e
tiver o piá lá, eu mato ele.”
Por conta da violência generalizada com que
nos habituamos a conviver, seria muito mais congruente esperar que o ladrão
abandonasse a criança em um lugar qualquer e mantivesse a posse do carro.
Acontece que ele é ladrão, mas provavelmente é um bom pai. E foi o sentimento de
revolta pelo descuido com a criança que o fez abdicar do fruto do seu trabalho.
E a muito mais: ter de se denunciar parcialmente como ladrão à própria
polícia.
Alguns psicólogos chamam de “dissonância cognitiva” a este tipo de
ambigüidade, como se cada um de nós estivesse condenado a um comportamento
coerente, lógico, linear. Na verdade, todos nós somos muito parecidos com o bom
ladrão de Passo Fundo. Roubamos e amamos, muitas vezes à mesma pessoa, sem
nenhuma obrigatoriedade de uma dessas ações anular o efeito da outra.
Isto
fica bem claro no final do telefonema do ladrão: a sua indignação é tão grande
quanto o seu amor à profissão. Vai continuar roubando, sim. Mas o suposto pai da
criança está avisado: se esquecer mais uma vez o piá no carro,
morre.
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