| Meiotom - poesia |
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ronaldo monte |

Traga uma lembrancinha pra mim, ela pediu. Qualquer coisa simples
que faça você lembrar de mim, ela falou, oferecendo a boca para a
despedida.
Ele entrou no ônibus sabendo o cansaço que o esperava. Ia para
longe, alto sertão, mais de doze horas de viagem. Cidade perdida
entre serras. Ia ser difícil encontrar alguma coisa para ela.
O ônibus rolando pela estrada reta, hipnótica. O sol da tarde
batendo de frente, ofuscando através do vidro fumê. Impossível
dormir. O olhar compulsório não registrava nuances. Vastas planícies
de vestes rasteiras e o horizonte de serras inalcançáveis.
Saiu no começo do dia, chegou no começo da noite. Um resto de luz
teimando no poente, um resto de calor que cedia à frieza. A pousada
Com a manhã, os passarinhos. De onde vinham e para onde iriam tão
logo o sol esquentasse? E as pessoas, onde estariam com suas vozes
arrastadas e suas poucas respostas? E os bichos pequenos que não se
mostravam, chispando entre as folhas ralas dos arbustos?
Era muita luz para o pouco a ser iluminado. A palavra agreste
armou-se em todo seu sentido. Luz demais sobre quase nada. E este
era o desafio. Forçar os olhos a ver o que a luz escondia. Inventar
sombras. Criar movimentos.
Lembrança. Que lembrança levar para ela. Nada para comprar, nem
pedir, nem achar. E estes olhos viciados aos contrastes chapados dos
signos urbanos eram cegos para a beleza cantada pelos versos
agrestes dos poetas.
Lembrança. Era isto que tinha para dar a ela. A lembrança dela o
tempo todo enfeitando a paisagem impenetrável. Ela mesma impedindo
que a paisagem se abrisse aos seus olhos. Era ela, a lembrança dela
que o impedia de encontrar alguma coisa que levasse de lenbrança.
Foi isso que ele deu a ela. A lembrança dela o tempo todo ofuscando
a visão, saturando a memória. Foi isto o que tentou dizer ao mostrar
as mãos vazias e as retinas fatigadas com a imagem dela.
Imagem obtida em:uni-adversidade.blogspot.com
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