| Meiotom - poesia |

Quero pedir desculpas aos leitores pelo assunto que vou tratar
nesta crônica. Nunca fiz isto, mas desta vez acho necessário,
pois eu, que me considero calejado na escuta das misérias
humanas, me senti atingido quando li a notícia no jornal. Fico
imaginando, portanto, o quanto o fato deve ferir a sensibilidade
dos menos traquejados com as manifestações quotidianas do mal.
Quatro pedras de crack. Quatro míseras pedras de crack foi o que
um pai, no interior da Paraíba, recebeu de um traficante em
troca de sua filha de quatro anos. Uma pedra para cada ano de
vida. Recebido o pagamento, o homem enrolou a filha num lençol,
vestida apenas com um short, e a levou para um matagal onde o
estuprador esperava.
No domingo passado, comemoramos o aniversário de quatro anos da
minha primeira neta. E é no seu corpo frágil e na sua alma
esperta que eu penso agora ao tentar compreender essas duas
infâmias: o que pode levar um pai a entregar sua filha a um
estuprador em troca de qualquer bem, por mais valioso que seja.
O que pode fazer uma criatura sentir um impulso sexual por um
corpo imaturo e indefeso de uma criança.
Não vamos, em nenhum instante, chamar os criminosos de animais,
pois os animais são incapazes de praticar qualquer ato perverso
contra os de suas espécies. No terreno do mal, não é a
animalidade que deve ser contraposta à humanidade. O contrário
do humano é o desumano. Este duplo crime nos coloca nos limites
da nossa humanidade. Aponta para o terreno obscuro da
desumanidade, para onde qualquer um de nós pode ser remetido,
dependendo de nossas circunstâncias.
Foi por isso que comecei esta Crônica com um pedido de
desculpas. Peço perdão por ter de lembrar que todos nós corremos
o risco de tornarmo-nos desumanos. E que a nossa frágil
humanidade dever ser construída a cada instante, principalmente
quando somos tomados por sentimentos de ódio e desejos de
vingança frente às manifestações quotidianas do mal.
Ronaldo Monte