| Meiotom - poesia |
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ronaldo monte |
Veja,
ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que cochila aí ao lado. É
minha mais nova neta, a Malu. Talvez eu devesse dizer futura neta,
pois ela ainda está no quinto mês de gestação e o flagrante se deu
na barriga de sua mãe, mulher do meu filho. Mas aí é que está um dos
grandes problemas da humanidade: quando é que uma pessoa começa a
existir?
Não quero perder tempo aqui com o problema sobre o início da vida,
pois isso tem sido motivo para um desfile de discursos
preconceituosos e pseudocientíficos, principalmente quando está em
questão o direito ao aborto. Minha preocupação é bastante mesquinha
e pessoal: posso considerar Malu como minha neta e começar a comprar
coisas e fazer planos para ela, antecipando em alguns meses sua
existência fora do ventre da mãe?
Vejam bem a situação atual em que estão as coisas: enquanto um
projeto de menina se nutre, dorme e dá cambalhotas no exíguo espaço
que lhe protege, um batalhão de adultos escolhe seu nome, borda esse
nome em lençóis e toalhas cor-de-rosa, faz planos para os seus
quinze anos e já pensa no que ela vestirá no baile de formatura. Em
suma, já existe todo um presente e um futuro prontos para ela viver.
Certos papéis já lhe estão destinados pelas condições de classe
social e nível de informação de seus pais e adjacentes.
Enquanto isso, a futura Malu dorme, cresce e dá cambalhotas. Mas
será que é de uma futura neta que estou falando? Ela já está aqui,
determinando o que penso e escrevo. Essas meninas começam cada vez
mais cedo a perturbar a vida a gente.
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