Meiotom - prosa


 

 

                                 ronaldo monte

 

Passageiros

 

Somos todos passageiros. Nem o motorista e o cobrador escapam. Estamos todos de passagem. Indagora mesmo, passamos de um ano para outro. A rigor, nada de mais aconteceu na ordem natural das coisas. Acontece que não somos naturais. Somos animais de cultura. Temos alma, temos memória, sentimos saudades e alimentamos a teimosia da esperança. Por isso precisamos marcar a passagem do tempo. Para construir um elo entre a saudade e a esperança.


Somos todos passageiros. Um dia, todos passaremos. E conosco passarão todo o júbilo e todo sofrimento, todo o amor e toda ira que julgávamos eternos. Sejamos, pois, pacientes. Mergulhados no rio do tempo, deixemos que ele nos lave de toda pretensão de eternidade.

 

Somos todos passageiros. Viajamos no bojo de uma nave que nos leva por um caminho invisível e sem estação de chegada. Da janela vemos o sítio infinito por onde vagamos e nos damos conta do quanto somos miúdos. Do quanto somos frágeis e desamparados. Por isto inventamos mitos, alimentamos heróis, criamos lendas, fazemos poemas, construímos cidades.
Somos todos passageiros. E sabemos que a qualquer momento a nossa viagem pode chegar ao fim. Por isto somos melancólicos, sofrendo por antecipação uma perda que sabemos inevitável. Toda separação é dolorosa. Todo desaparecimento é temível. Por isto erguemos monumentos. Por isto tiramos fotos, por isto criamos na memória uma história sem mácula, em que somos todos bons.

 

Estamos em trânsito. Trazemos de nascença a marca da transitoriedade. Transitemos pois com esperança para o ano que começa. E que não tenhamos motivos para ter saudade desse ano que já passou tarde.

 

Ronaldo Monte

 

Imagem obtida em: www1.folha.uol.com.br

 

 

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