| Meiotom - poesia |
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ronaldo monte |
Quando
amanheceu, olhou-se no espelho e se assustou. Estava pálido. Pálido,
não. Quase azul. Morto, talvez. Mas não, morto não se olha no
espelho. E, se olha, não se vê. Estava vivo, sim, mas com cara de
morto. Morto-vivo. E um calafrio relampagueou seu corpo.
Não era apenas o rosto que estava azul. Os braços e os dorsos das
mãos também azulavam. Seu peito também, com os tufos de pelos
melados de azul. Então era isso. Não era a pele que estava azulada.
Era alguma coisa azul que cobria seu corpo, como uma camada de tinta
seca que se rachava.
Cheirou o braço esquerdo. Não era cheiro de tinta. Era um cheiro
leve de cosmético fino. Precisava de um banho. Depois, de uma boa
explicação para o azul.
Enquanto a água escorria levando o azul pelo ralo, no escuro dos
olhos pintou um clarão. No meio do clarão, uma silhueta esguia de
mulher. Braços estendidos, ela esperava que ele flutuasse ao seu
encontro, sem deixar qualquer dúvida que podia flutuar. Ele flutuou
até ser cingido pelos braços da mulher que o carregou em direção à
lua.
Então ela o pousou no chão da lua. Estavam nus. E ela apanhou um
punhado da areia fina da lua, derramou lágrimas azuis sobre a areia
e passou suavemente no corpo do homem entorpecido. Ele queria
mover-se e não podia. Era como se a pasta fina de lágrimas e lua
guardasse seu corpo como uma armadura.
E foi assim que ele dormiu e acordou
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