| Meiotom - poesia |
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ronaldo monte |
Parece uma rebelião de presídio ou uma cena de filme em que a
multidão pede a morte do gladiador abatido no circo romano... Nem
presídio, nem circo. A cena se passa no pátio de uma universidade. A
turba dirige sua fúria a uma aluna de vestido vermelho curto. Esse
era o seu crime. E a sua condenação vinha de um coro enfurecido:
“puta – puta”. Foi preciso vir a polícia retirar a moça do prédio,
coberta com um jaleco. Ela corre, de fato, o risco de ser linchada
pela multidão enlouquecida. Em uma das cenas filmadas por amadores,
ouve-se uma voz feminina em
off: “O
pessoal está indo atrás da puta da faculdade”.
Tentando me afastar do misto de fascínio e horror que o episódio
desperta, tento compreender a patologia social que se esconde por
trás desse sintoma. O que estaria na base dessa manifestação de
intolerância e violência?
Nas primeiras páginas de sua novela “Mário e o mágico”, Thomas Mann
relata o episódio em que uma menina de oito anos, de corpo franzino,
tira o maiô para lavar e corre nua para o mar. Logo, toda a
burguesia italiana que frequentava o balneário se sente ferida em
sua moral e denuncia os pais da menina à polícia. Deste pequeno
incidente de intolerância, o autor deduz todo o clima belicoso que
se apoderava do povo italiano prestes a se entregar à aventura
fascista.
A alma italiana estava já envenenada pela versão mussoliniana do
discurso nacional-socialista. Toda e qualquer manifestação de
costumes estrangeiros era uma ameaça à supremacia da raça e deveria
ser combatida e extirpada no nascedouro. A relação entre a
intolerância dos veranistas e o ideal facista foi brilhantemente
estabelecida pelo gênio de Thomas Mann.
Quanto a nós, o que temos a deduzir do episódio da universidade
paulista? De saída, podemos estar diante do efeito do divórcio entre
o ensino tecnológico e a ética humanista. Podemos,ainda, estar
testemunhando uma exibição ruidosa da demonização do outro, qualquer
outro, que desperte o que de mais vil ou execrável dormita dentro de
nós. Pode ser um negro, um judeu, um muçulmano, um nordestino, um
homossexual ou, no caso, uma mulher.
Vivemos num mundo em que os recursos ficam cada vez mais raros,
sendo cada vez mais difícil partilhar os bens equitativamente. É
preciso, portanto, criar estranhos, estrangeiros, culpá-los pelo
escassez e destruí-los como indignos da partilha. Visto desse
ângulo, cada um de nós, pode, a qualquer momento, ser transformado
numa “puta” da faculdade.
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