Já
não bastava terem transformado nossa
alimentação num problema médico.
Agora, ela está sendo tratada como
um assunto veterinário. Sim, pois
desde que me entendo de gente, ração
sempre foi uma coisa a ser dada aos
animais. Já deu a ração do gado?,
pergunta o dono ao vaqueiro. Já
botou a ração do cachorro?, pergunta
a mãe para o filho.
Confesso que me assustei quando vi
pela primeira vez uma referência à
ração humana. A primeira imagem que
me veio à cabeça foi um homem nu, de
quatro, atacando sofregamente uma
tigela na área de serviço de um
apartamento.
Sei que muita gente não presta mais
atenção ao sabor daquilo que come.
Qualquer coisa serve, desde que lhes
encha o bucho e os mantenha em pé
até o fim do dia. Tem a galera da
coxinha com refrigerante e a turma
da granola com linhaça dourada. Sem
contar com os vegetarianos de
carteirinha e os bons e velhos
macrobióticos que ainda sobrevivem
por aí. Talvez essas tribos não
ofereçam resistência à tal ração
humana.
Felizmente, ainda tem gente, como
eu, que permanece adepta de uma boa
refeição. Mesmo que se pegue leve
durante a semana, com uns grelhados
sóbrios, modestas saladas e pouca
carne vermelha, a mesa toma outras
cores entre o jantar da sexta e o
almoço do domingo.
Nesse intervalo vale umas massas,
peixadas ao coco, filés ao molho
madeira, feijoadas, favadas, siris,
caranguejos e muito camarão. Sem
falar nos mais diversos
acompanhamentos líquidos, que devem
ir do aperitivo ao digestivo sem
queimar nenhuma estação.
Desde o jantar íntimo das sextas,
até as ruidosas mesas dos sábados,
são os pratos feitos com amor e arte
que promovem a confraternização
entre nós, os comensais. É certo que
a língua não perdoa e já chamou
nossa comida de repasto e antepasto.
Mas ainda assim, pastar é comer
livremente, provando aqui e ali dos
vários capins, como os bois e os
carneiros. Comer ração é se
alimentar insossa e apressadamente,
como os cachorros neuróticos dos
apartamentos.
Postado por
Ronaldo Monte
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