“O
escritor José Saramago morreu”. Foi
esta a mensagem que minha nora
mandou para o celular de uma das
minhas filhas. Era preciso deixar
bem claro qual Saramago estava
morto. Para isto serviam as palavras
“escritor” e “José” na mensagem.
Para que não se pensasse que um
outro Saramago tinha morrido. No
caso, o meu cachorro, que procura
honrar o nome que lhe dei, ganhando
o mundo ao menor descuido com o
portão.
Conto isto para mostrar o quanto o
nome Saramago é íntimo da minha
casa. Muitas vezes por dia é
repetido, tantas vezes quantas o
incorrigível vira-latas transgrida
as regras da boa convivência entre
as espécies.
Foi esta intimidade com o nome,
reflexo da minha intimidade com os
livros de Saramago, que levou
algumas pessoas a ligar para mim, me
consolando pela morte do escritor.
Vã tentativa, pois ninguém se
consola de tamanha perda.
Não temos mais o narrador insólito
que nos mostrava as feridas eternas
da desumanidade como se as víssemos
pela primeira vez. Não temos mais
quem amplifique no seu texto a voz
tímida dos oprimidos de todos os
tempos e lugares. Nem mais o olhar
ao mesmo tempo irônico e benevolente
sobre as nossas fraquezas e
presunções.
Desamarra-se de vez a jangada de
pedra. A rocha de consciência e
compaixão deriva agora pelas águas
do sem tempo. Ser pedra e flutuar.
Duro e leve de uma só vez. Talvez
seja esta a lição que ele quis nos
transmitir. Era isto, talvez, que
nos dizia o seu olhar mesclado de
ironia e esperança.
“O escritor José Saramago morreu”,
dizia a mensagem no celular da minha
filha. Mas em minha casa, seu nome
ainda será por muito tempo repetido.
Toda vez que esse outro Saramago,
honrando o nome que lhe dei,
desafiar com ousadia as ordens e os
limites que tentamos impor à sua
liberdade de cão.
Postado por
Ronaldo Monte
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