| Meiotom - prosa |
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ronaldo monte |
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Uma
mulher com uma criança no colo e uma menina agarrada à sua saia esperava que
o trânsito pesado diminuísse para poder atravessar em direção a uma favela
no outro lado da pista. Estava ansiosa e a menina tinha medo. Parei o carro
perto dela e aconselhei que procurasse atravessar na faixa que estava ali, a
uns dez metros, sob um semáforo operado pelos pedestres. Ela olhou intrigada
para mim, com cara de quem não entendeu, e continuou no mesmo canto, com a
mesma agonia.
O pequeno incidente me deixou com algumas perguntas para as quais ensaio
umas respostas. Em primeiro lugar, o que faz com que uma pessoa escolha
arriscar sua vida e a de seus filhos, tendo a pouca distância um sistema
confiável que os deixaria com segurança no outro lado da pista? Em segundo
lugar, por que, mesmo com a minha intervenção, essa pessoa insistiria em não
usar a faixa e o sinal tão fáceis de alcançar?
A tentativa de resposta à primeira pergunta seria que a camada da população
à qual a mulher pertencia está condicionada à desproteção, à ausência de
serviços e equipamentos públicos que cuidem da sua segurança. De tal modo
que não percebem quando um destes serviços ou equipamentos é colocado à sua
disposição. O desamparo histórico ao qual estão condenadas faz com que essas
pessoas simplesmente não registrem qualquer alteração nesse tipo de
tratamento por parte do poder público. A faixa e o sinal de trânsito não
foram feitos para aquela mulher. Por isso ela não os vê, mesmo que estejam
instalados na entrada da favela em que mora.
Quanto à ineficácia da minha recomendação, a resposta não é muito diferente.
Desde quando um motorista de um carro particular pára na pista para dizer
qualquer coisa que não seja um impropério a uma pessoa daquela? Pelo olhar
de intriga que ela me lançou, tenho certeza de que não entendeu nada do que
eu disse, pois não faz parte da expectativa dela que uma pessoa como eu se
preocupe com a sua segurança.
Não estou muito seguro do que digo, mas suponho que aquela mulher e as duas
crianças são vítimas da falta de cuidado. E não basta uma faixa e um
semáforo para que se sintam protegidos. Muito menos lhes serve a advertência
de um motorista bem intencionado. O cuidado que lhes falta é atávico. São
mais de quatro séculos de desamparo, à margem de políticas públicas que lhes
permitam se perceber como cidadãos dignos de usar uma faixa e um sinal de
trânsito e de escutar sem medo o que um outro cidadão lhes tem a dizer.
Imagem
obtida em: melquilima.blogspot.com
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