| Meiotom - poesia |
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ronaldo monte |

Todo ano é a mesma coisa. Começa dezembro, os sinos bimbalham e eu
me deprimo. É automático, inevitável. Vocês sabem muito bem de que
sinos estou falando. Não é o sino da torre da velha igreja que todos
trazemos da infância. Nem os carrilhões das grandes catedrais que
conhecemos de passagem ou pelos filmes. Os sinos que me deprimem bimbalham
nas musiquinhas cabulosas que tocam nas lojas, nos carros de
propaganda e nos anúncios de televisão. Eles querem reproduzir em
nossa memória uma lembrança que não temos. Querem nos lembrar os
guizos de um trenó que desliza sobre a neve puxado por renas
carregando um bom velhinho com um saco enorme cheio de presentes. E
talvez seja isto o que me deprime.
Vejam que não estou falando de nostalgia, pois esta sempre nos
lembra alguma coisa que perdemos e não podemos mais recuperar. Os
sinos que bimbalham em dezembro não me lembram nada que alguma vez
tenha perdido. Eu nunca vi um trenó, não conheço uma rena e não me
lembro de nenhum velhinho gordo e simpático que me tenha dado um
presente.
O que perdi, e disto sinto falta, foram os dias de correria que
antecediam a noite de festa, no natal e no ano novo. O que perdi foi
as mãos fortes do meu pai abrindo a massa do pastel com uma garrafa
cheia d’água. Perdi também o cheiro dos pastéis assando no forno e
depois se derretendo na boca, misturando o doce do açúcar com o
gosto salgado da azeitona. Perdi também o presente achado debaixo da
cama na manhã seguinte. Perdi o pai, a mãe as tias e uma parte dos
irmãos que construíam comigo essas festas. Isto me faz nostálgico.
Mas não me deprime.
É por isso que faço tudo para me recolher em casa assim que começa
dezembro. Não quero ouvir o bimbalhar dos sinos. Não quero fazer
parte da correria insana que leva as pessoas de um canto para outro
em busca de uma coisa que não vão encontrar. Nem dentro delas
mesmas. Pois esta coisa chata que as simones e os robertos cantam,
que até o pobre do John Lennon é obrigado a cantar, não existe em
canto nenhum de nossa memória. Elas existem fora de nós, fabricadas
por uma indústria de ilusões e bugigangas. Não me perguntem, pois,
por quem os sinos bimbalham. Uma coisa eu garanto: não é por mim.
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