| Meiotom - poesia |
O fantasma do Urso

Crematório de Vila Alpina, São Paulo. Um homem
pede informações detalhadas sobre os serviços e
os custos. Tira o talão de cheques do bolso e
paga à vista. Quando a atendente pergunta onde
está o cadáver, o homem responde: “O cadáver sou
eu.”
Alguns meses depois, no dia 19 de dezembro de
1990, com 77 anos, morre Rubem Braga, o Urso,
dono de sua morte, assim como foi dono de sua
vida.
Hoje, vinte anos depois, o fantasma do Urso vem
se instalar às minhas costas e quase não consigo
dar cabo desta crônica. Cada palavra, cada frase
é imediatamente comparada ao estilo do mestre,
denunciando minha fragilidade de cronista. E
sinto que o Urso me desdenha por chamá-lo de
mestre. Mas é bom que me desgoste e tire os
olhos do meu texto. Só assim consigo escrever
sem o peso do seu fantasma, sem ter que
adivinhar seu focinho de leão marinho se
contorcendo a cada frase mal escrita.
Agora, livre do fantasma, posso falar sem
preocupação do encantamento que tive e tenho ao
ler as crônicas do velho Braga. Posso chamá-lo
assim, pois sou seu íntimo. Pelo menos ele é
íntimo de mim. Pois nada do que li dele me foi
estranho. Ele sabia falar de mim de uma forma
tão simples, tão humana, revelando minhas
grandes fraquezas e pequenas virtudes como se eu
as tivesse vendo pela primeira vez.
Nos meus momentos de solidão e sofrimento, não é
aos grandes poetas e filósofos a quem recorro.
São os livros do Rubem que folheio, na busca de
uma tirada irônica ou mal humorada sobre as
chateações naturais da vida. E nos bons momentos
de minha vida, é ainda ao Braga que recorro,
para que ele me mostre o quanto tudo é
transitório, efêmero. E foi desta
transitoriedade e desse efêmero que Rubem Braga
fez a sua obra.
Quando leio um texto de Rubem Braga, tenho a
certeza de que foi um homem que o escreveu. Um
homem, sim. Do gênero masculino. Um homem aberto
para a compreensão dos seus semelhantes e
cuidadoso com as peculiaridades do feminino.
Me desculpem, mas eu tenho que terminar esta
crônica. Já ouço uns passos atrás de mim e sei
que o fantasma do Urso volta para bisbilhotar
meu texto. Tenho que desligar rápido o
computador, pois não quero sentir o seu focinho
se entortar de reprovação a tanto desperdício de
palavras. Nem muito menos que perceba o nó na
garganta traindo o sentimento pela sua falta.