O velho e o antigo
Tenho
sessenta e dois anos e guardo uma
fotografia de quando tinha uns
quatro anos de idade. Agora,
pergunto: quem é velho, eu ou o
menino da foto? Uma das respostas
que me ocorrem é que a foto seria
antiga, enquanto eu sou
contemporâneo. Pelo menos
contemporâneo de mim mesmo. Deste
ângulo, velho seria o menino da
foto, enquanto o cara que escreve
estas linhas é um fenômeno atual.
De um certo ponto de vista, o menino
da foto e o escriba são exatamente a
mesma pessoa. Ou não? Vejamos. Será
que as células do sessentão são
exatamente as mesmas do garoto? As
feições do velhote lembram
minimamente a cara rechonchuda da
velha fotografia? A memória do
pré-ancião recorda as coisas vividas
pelo menino? Pode ainda o atual
candidato a proveta olhar o mundo
com os mesmos olhos ingênuos da
antiga criança? Pode o gasto coração
sentir com o mesmo frescor as
emoções que abalavam o coração
nascente?
Enquanto escrevo, vai se firmando
uma certeza: sou um ser de memória.
E no âmbito da memória, tudo gira
entre o velho e o antigo. Velho sou
eu. Antigo é o menino. E de mãos
dadas, o velho e o antigo vasculham
os escombros da memória para com
isto construir algo de
verdadeiramente novo. Algo que
estará além de mim e do menino.
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