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ronaldo monte |
Ventania
Estamos em pleno agosto, mês das ventanias. Agosto sempre me
serve como uma metáfora de passagem. Estamos saindo da estação
das chuvas e prevendo o sol que virá com setembro. Mas até lá,
teremos que nos haver com os ventos de agosto, que tanto nos
chateiam com seus alvoroços, quanto nos alegram com a dança das
saias.
Os ventos de agosto levam para longe os miasmas e o mofo criados
nos aguaceiros. Seus redemoinhos denunciam o sujo das ruas,
carrosséis de papel e folhas secas. Suas noites friorentas
propiciam a reconciliação dos casais e atiçam os solteiros em
busca de uma costela onde se esquentar.
Agosto irrita, às vezes. O cinzento do céu do inverno ainda
teima em nos tapar o sol. As rajadas mais fortes do vento
castigam com areia as pernas dos que já se aventuram à
beira-mar. Foi o mês em que morreu Getúlio, em que cai o dia das
sogras, em que dizem que a bruxa anda solta. Por falar nisso,
neste agosto de 2010 vamos ter uma sexta-feira 13.
Mas se não ligarmos para esta fama de mês aziago, podemos viver
em paz o que nos resta deste agosto. Enfrentemos com alegria a
sua ventania. Vamos pedir para que ela leve, junto com os
miasmas e o mofo, as nossas tristezas pelas notícias ruins
acumuladas neste ano. Que o vento forte sopre para longe a
maldade encruada no coração dos homens.
Pode parecer um desejo infantil, ilógico, esse meu. Mas é o que
me ocorre pedir a agosto, este mês de passagem do peso das águas
para o céu limpo sobre os campos e as praias. Que o seu mar
revolto nos entregue às ondas calmas. Que sua ventania nos leve
à brisa leve do verão. E quando estivermos torrando sob o calor
da última quadra, lembremos com carinho dos momentos de terna
intimidade que agosto nos deu.
Ilustração: Ventania, Parreiras 1888, Pinacoteca do Estado de
São Paulo
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