| Meiotom - poesia |
Pelas
musas começar, pois é próprio das musas louvar os feitos dos
deuses. E como louvaram as musas midiáticas os feitos destes
deuses de bermudas e pés de chinelo que reinavam no olimpo de
vielas e valetas. Como foram fartos os hinos cantando o poder de
vida e morte das divindades mulatas sobre seus súditos
aterrorizados. A farra das musas enaltecendo os bondes,
enlouquecendo ao embalo dos funks, entregando-se ao torpor das
ervas, das carreiras de pó e das pedras flamejantes servidas
pelos bacos de motocicletas. E os raios divinos cruzavam os céus
noturnos, recados dos senhores dos becos escuros para quem
ousava enfrentar o seu poder.
Mas não há deuses que resistam ao tempo. Zeus, o grande Zeus
Porta-Égide, exilou-se do seu trono do Olimpo. Vieram muitos
deuses depois dele. Até chegar o tempo desta leva de demônios
donos das encruzilhadas michas das favelas. Deuses marionetes,
animados por um poder distante e alheio a esse olimpo
mal-cheiroso.
Tome-se como emblema este Zeu. Este deus mutilado e humano que
traz de batismo o nome de Elizeu Felício de Souza. Foi um dos
responsáveis pela morte cruel do jornalista Tim Lopes.
Participou da ação que derrubou um helicóptero da Polícia
Militar do Rio de Janeiro. Foi um dos comandantes da invasão do
Morro dos Macacos,
Como tantos outros pequenos deuses da sua laia, Zeu mostrou a
sua verdadeira face quando foi preso pelas forças que tomaram de
assalto o seu olimpo no alto do morro do Alemão. Uma cara
amedrontada, de quem sabe do seu destino. Um deus vaiado pelas
pessoas de bem a quem subjugava pelo terror. Um deus de calças
mijadas, exposto ao ódio do mundo pelas câmeras de televisão.
Pobre Zeu. Pobres pequenos deuses. Vão mofar na cadeia ou fugir
de volta para as escadarias das vielas fedorentas. Longe deles,
homens de carne, osso, poder e muito dinheiro continuarão a
criar e manipular novos fantoches com ares e insígnias de
divindades.