Meiotom - poesia


 

 

EDSON BUENO DE CAMARGO

 

degraus vermelhos

 

a velha casa

espera-me em sonhos e pesadelos

como o desvão

de fraturas no cimentado

e nos vãos da calçada de tijolos refratários

(e suas superfícies vítreas)

 

assim como as rangedoras portas e janelas

taramelas que cantavam

anunciando as chegadas e partidas

 

os lumes tentavam

desesperados furar o escuro da noite

onde vaga-lumes verdes

emitiam estranhos sinais

e olhos infantis e medrosos

viam coisas em meio às sombras

 

noites sem lua

noite de assombro

de ouvir as formigas subindo na parede

e monstros sorridentes sobre o guarda roupa

 

piar de coruja

nos velhos esteios

silvo de vento que cortavam

as dobras dos corredores

 

a velha casa

sobrevive ao seu fim

a jovem que cresceu sobre suas raízes

ainda é árvore de seus tijolos

 

o tempo não comeu suas paredes

de argamassa de caulim e terra

de reboco que mostrava suas veias no verão

na caiação trincada

desenhando mapas imaginários

de lugares inexistentes

(mas ali presentes)

 

a velha casa

e sua varanda de degraus vermelhos

carrego-a nas costas

o tempo todo

 

 

 

 

répteis

vomito cobras vivas

cinco ao todo

répteis que caem ao chão

e fogem assustados

ainda úmidos

sulcam a terra

desaparecem na poeira

 

pajés do planalto central

visitam meu devaneio

saltam de dentro

de nuvens de fumaça branca

cheiram a querosene e tabaco

pólvora queimada e pinga

moeda cachaça para todos os santos

para juremas

para os caboclos errantes

para os egúns vivos quase mortos

que caminham pela civilização

e têm nos olhos telas brilhantes e antenas

 

não se sabe

se é noite ou dia

céu vermelho sobre a cabeça

tempestade de areia do Saara

dormindo nas águas quentes do Caribe

 

câmeras assustadas filmam o abismo

desvelam línguas e palavras

uma menina pivete desafia a polícia

com seu corpo magro e olhos de assombro

um diamante vivo em cada pálpebra

Glauber Rocha ressuscitado em Brasília

dirige tudo aos berros e euforia

(como todo bom baiano

sorri irônico como um Caetano)

 

tudo é sonho

tudo é vermelho

tudo cheira a esgoto a céu aberto

tudo cheira a vidro quebrado e hospital

 

as mesas dos botecos se embriagam

devoram as palavras que os poetas lhes derramam

lambidas por lagartos abissais

a cidade (e suas asas)

é um poço sob os discos voadores

 

 

 

ambíguo

 

um pássaro com umbigo

seria ambíguo

sua placenta

se exila de sua mãe

no nascedouro

antes mesmo do nascimento

na postura

 

o pássaro se desambigua

antes do ente humano

em uma exercício de desapego

muito além

de qualquer capacidade afetiva

pois o ovo

é o exílio necessário

para o vôo

 

isto mais tarde

lhe dará a possibilidade

de se desvincula do chão

quando do desapego

de se estar sobre a terra

vencerá a gravidade

ou a enganará segundo as medidas quânticas

 

há grandes vantagens aos mamíferos bípedes

crescer dentro da progenitora

mas crescer desgarrados ao contrário

nunca querem vir a luz de fato

primeiro o paraíso depois a vida

terão da altura vertigem

nunca serão capazes de voar

(ao menos alguns de nós)

 

 

 

silêncios

 

há um abismo de palavras

entre eu e meu pai

assim como havia entre ele e o seu falecido pai

e o pai de meu pai e o seu pai

até que se chegue

ao primeiro macho reprodutor de minha linhagem

como se as línguas se congelassem

no instante da palavra

em que os homens são rivais

em sua progenitura

 

 

no entanto

como a poesia se faz de silêncios

e ausências

 

o calar de meu pai

também me ensinou sobre a poesia

 

 

 

 

ar seco do deserto

 

este redondo sol lua

que mergulha lento

no concreto

dos limites de meu olho

veste-se de lágrimas cinzas

e sangue seco

 

céu de contrafortes

grande muralha

que afasta

os vivos dos mortos

 

sonho com arroz

que se derrama

e uma grande mesa com carne e vinho

servidos

 

os touros galopam

de assalto

cascos em chamas

asfalto que afoga a noite

o carisma dos esquecidos

 

forro meus olhos

do medo líquido

minha mão branca

coleção

de almas penadas

 

e o nariz em sangue

no ar seco do deserto

que estão estes dias

 

 

rosas heráldicas

 

teus olhos

devastam-me a pele

como rosas heráldicas entrelaçadas

e facas feitas de espelho

 

cobrem minha íris de estrelas

e cacos de vidro fúnebre

cortam minha carne

em delicadeza

 

teus dedos

são meus dedos

e cada ponta

um dígito em fogo

sua púbis

seus pelos

marca de identidade

 

cada tempo

traz a hora que cobre

as colheitas do trigo

as primeiras uvas

as construções antigas

 

todos os reis são para sempre

e mergulham um dia

no esquecimento

 

a velhice

é mergulhar em olvido

cada dia

distante de nós mesmos

 

 

 

manancial

 

hoje

a poesia me abandonou

no deserto

na beira de uma cisterna seca

com pedras em suspensão

 

de cada seixo rolado

abandonado ao fundo

palavras e letras se espelham

 

o deserto é branco

celulose selvagem

tecido fibra por fibra

 

a água espera em algum manancial

a língua (seca) escassa

tem pressa

 

as pedras enchem minha boca

em algum alívio mineral

assim como as serpentes

que fogem do sol escaldante

 

o deserto é um mar que morreu um dia

o sal que ficou

agora dói em meus olhos

 

 

 

origem divina

 

 

as letras de todo nome

carregam no escuro

os signos de animais celestes

 

cada palavra

tem origem divina

e cada letra

ainda lembra que um dia

foi um vocábulo inteiro

 

e

esta

quando grafada

cria em magia um mundo

 

 

 

 

vermelha

 

a tarde cai

abrupta

e vermelha

 

nos subterrâneos

e nos subúrbios

em seus muros

necromantes desajeitados

geram um mundo deformado

Edson Bueno de Camargo nasceu em Santo André - SP, em 24 de julho de 1962,  mora em Mauá – SP.

 Publicou: “cabalísticos” Coleção Orpheu –Editora Multifoco – Rio de Janeiro – 2010,; “De Lembranças & Fórmulas Mágicas” Edições Tigre Azul/ FAC Mauá -2007; ”O Mapa do Abismo e Outros Poemas” Edições Tigre Azul/ FAC Mauá -2006,  “Poemas do Século Passado-1982-2000 edição de autor - Mauá - 2002; “Cortinas” (edição artesanal), com poesias suas e de Cecília A. Bedeschi - Mauá - 1981; foi publicado esparsamente em algumas antologias poéticas, jornais e revistas literárias, no papel e na Internet.

Recebeu entre outras, as premiações: CONCURSO LITERÁRIO – SÃO BERNARDO DO CAMPO – Premiado na Categoria 1 Poesia Nacional – 2010; 1º lugar 5° FESTIVAL SANTA LÚCIA DE CONTOS E POESIAS – FESTCOPO –  - Modalidade- Poesia – 2010; lugar nacional - 6º CONCURSO LITERÁRIO DE SUZANO – Categoria Poesia - 2010 lugar nacional - 4º CONCURSO LITERÁRIO DE SUZANO – Categoria Poesia - 2008; lugar do PRÊMIO OFF-FLIP DE LITERATURA – 2006 – categoria Poesia;Classificado- X PRÊMIO ESCRIBA DE POESIA – 2008; lugar com o poema “serpentário” e Menção Honrosa com o poema “esquisito” -  3º CONCURSO NACIONAL DE POESIA - COLATINA 2007 PRÊMIO “FILOGÔNIO BARBOSA”.

Participa do grupo poético/ literário Taba de Corumbê da cidade de Mauá –SP.

 

Edson Bueno de Camargo

Rua José Cezário Mendes, 104 Vila Noêmia – Mauá – SP – Brasil.

CEP – 09370-600

correio eletrônico: camargoeb@ig.com.br