Meiotom - poesia


 

 

EDSON BUENO DE CAMARGO

 

inércia

 

 

sonho com escadas em ruínas

e que estas se decaem a olhos vistos

escadas de terra e barro vermelho de minha infância

escoradas com madeira e estacas

descem morro abaixo

barrancos precários

a mercê da chuva

e do medo do tombo

e de andar pela enxurrada

e a chuva escorrendo pelos óculos

(embaçados)

 

sonho com muros azuis fechando a rua

e o impedimento de voltar ao passado

a rua de minha meninice

porque dentes de aço brilhante

já devoraram o que não existe

 

e o quintal de minha solidão absoluta

de onde nunca mais sai de mim mesmo

o sítio onde eu era único

e só aos olhos da chuva eu era possível

e o onanismo da auto-libido

não existe mais

 

e onde as bicas da água caiam

revelavam-se pedrinhas brilhantes

que um dia foram guardadas como tesouro

garimpeiro de sonhos perdidos

sonho com a estação antiga

e o trem que se vai

e junto comigo amigos também

perdidos

assistem ao comboio que vai embora

 

a passagem dos mortos me atormenta

suas vozes cada vez mais sonoras

e a descrença em tudo me atormenta

e a violência da paixão me abandona

e a ausência desta gera uma tortura

e que viver ainda

possa ser masoquismo

ou sadismo aos que me sobrevivem

ou uma vingança aos que não

 

e  com inércia

a tudo respondo

 

 

 

nascem secos

 

 

homens nascidos

sob a lua minguante

ao beberem da água do nascimento

nascem secos como madeiro de esteio

 

vestidos de argamassa argilosa

são crus como adobe

secam ao sol

e se tornam duros

como terra batida de cupinzeiro

moldam-se ao vento

lutando contra sua direção

não se dobram

percorrem o seu desenho

 

no silêncio

falam línguas de fogo

e descansam nos olhos

anjos de cobre luzidio e flamejantes

 

aos que rebentam em julho

na procura por nuvens

quando ainda há pouca água nas cacimbas

e o calor do dia

tornam-se enigmáticos no frio da noite

quando se voltam a um ponto geográfico

como uma rosa dos ventos humana

(profetas do tempo)

determinam o lado que virá a chuva

 

e na velhice

estes seres

criaturas envenenadas pela palavra

passam a falar

a língua das bocas fechadas

e da fuligem dos fornos

 

arcam-se em reverências exacerbadas à terra

não morrem sem deixar nos pergaminhos

todos os seus possíveis epitáfios

 

 

 

transcendida

 

 

a cozinha

e os picumãs

da casa da madrinha de meu pai

dominavam a casa inteira

 

o fogão de lenha

queimava dia e noite

em culto profano e inconsciente a Héstia

a fumaça

enovelava o ambiente

sempre envolvidos em trevas entorpecidas

com fachos de luz

cruzando do vão das telhas às paredes

 

menino assustado

sentia a presença

de todas as mulheres daquela cozinha

que me falavam

na língua incompreensível dos espectros

acocorados no tempo

seus pitos

suas mezinhas

seus pés descalços

 

a madrinha de meu pai

tinha os cabelos cinza

de uma alquimista

que sabia do caldo da cana

ao poder doce do melaço

muitas vezes transmutada e transcendida

olhos brilhantes de santidade

 

a noite

meu medo infantil

confortava-se ao bruxulear

das lamparinas de querosene

no escuro

adivinhava a presença de meu tio

pela brasa do pito de palha

e a voz grave de meu pai

 

hoje

desta noite solitária

quarenta anos saltam para trás no tempo

ainda sou um menino tonto

livre como um cão na chuva a correr no pasto

 

 

 

guarda-chuvas coloridos

 

a chuva esparsa

pede guarda-chuvas coloridos

nesta primavera fria

de calçadas molhadas

 

as andorinhas que invernam em minha rua

chegaram semana passada

em seus pequenos peitos

trazem um continente

países que nunca saberei em uma vida

 

o gato branco ronrona e ronda

nos lóbulos elétricos de seu cérebro

um caçador está em alerta

 

as árvores pendem de flores

que caem com o vento

colorindo a rua de amarelo e branco

roxo claro

as pétalas da roseira brava do meu jardim

sua alma de cinza de carmim

como desejo de brasa escondida

e as pitangas vermelhas vivas

chamas do fogo roubado por Prometeu

 

ai de mim que amei  o humano

além das forças

transformado em Titã

pela força das circunstâncias

e poeta por amargo ofício

 

:

fico meditando sob gotas finas

a despeito de tantos corações vegetais

do grito das plantas

embriagadas pela estação

e de como o amor ao Sol

dá-lhe vida

e nos doam a vida

 

 

 

coisas de monstro

 

cristalino perdido

dentre os dentes da alma

congelado à espera

onde se esconde o fogo

 

como Prometeu

esperei doar o fogo aos homens

e ao invés de calor

trouxe-lhes o frio

 

porque o ente humano

que caminha na certeza absoluta

torna-se um monstro

e faz coisas de monstro

e diz coisas de monstro

e será banido como tal

 

não espero mais o amor da humanidade

a paz celestial

ou cocanha eterna

troco por uma passagem para a nau dos insensatos

 

hoje

contento-me mais com uma migalha de desejo

uma velhice tranqüila

meu neto correndo pela casa

e a luz de uns certos olhos

 

 

esboço

 

a partir

do esboço incompleto

de uma pessoa

 

pode se tomar

da linha inconclusa

o traço de um pássaro

 

será um humano pássaro

ou pessoa

que aprendeu a bater suas asas

 

(?)